segunda-feira, 7 de julho de 2014


Antônio Figueiredo Suas
Histórias Vividas e Seu amor
Pelo Brasil na Sala de Protheus:

 
ESPELHO MEU...

 
Espelho, meu! Espelho, meu!
 Por que a imagem que refletes não sou eu?

                                           Sou do tempo em que o Brasil era, tão somente, o maior produtor mundial de café e o no futebol ainda conservávamos o “complexo de vira-latas”, como assim nos definia Nelson Rodrigues e que ultimamente vem sendo usado para uma grande quantidade de outros grandes temas nacionais. Já Ary Barroso preferia classificar-nos como “mulato inzoneiro” por nossa “preguiça malemolente” a sermos cantados em versos na sua Aquarela do Brasil.
                                         Há muito deixamos de ser uma sociedade de cafuzos, mamelucos, mulatos, negros e brancos, para nos tornarmos ao lado dos EUA na segunda maior democracia racial do planeta, assim como desmentimos a acaciana profecia europeia, de que nos trópicos jamais haveria uma nação desenvolvida e rica. Por fim, nos tornarmos pentacampeões mundiais de futebol, ganhando cinco das dezesseis Copas do Mundo disputadas e com a possibilidade de ganhar o sexto caneco.
                                         Fui um privilegiado nascituro do ano de 1945, a cuja existência foi dada ver uma transformação econômica e social fenomenal a ser decantada no futuro histórico, como aconteceu com as grandes nações nos séculos de XXVIII a XX. Ainda que paulistano de nascimento, a vida me tornou “cidadão brasileiro” por minhas escolhas pessoais e profissionais, que me levaram a viver fora. Dos sessenta e nove anos de vida por trinta e seis vivi fora da “minha Paulicéia Desvairada”.
                                        Ainda aos dez anos idade, (em 1956, onze anos após o fim da II Guerra Mundial), fui estudar por três anos em um Seminário de padres alemães em Santa Catarina e ali aprendi a disciplina germânica. Aos vinte e oito anos mudei-me para Belo Horizonte e ali por cinco anos aprendi a amar a “cozinha mineira”, as mineiras e o sertão mineiro. Conheci o Serrado, o Vale do Rio Doce e as nascentes do Rio Grande. Pesquei por todo o Rio Urucuia, Jequitai, São Francisco e das Velhas e neles dormi “embarcado muitas noites sertanejas”. Enfim, inundei minha alma de Minas Gerais e contemplei “febril” as “esmeraldas” na Serra do Cabral desde a foz do Guaicui como um Fernão Dias moderno.
                                         De novo aos trinta e oito anos voltei às Minas e por onze anos me tornei “fazendeiro peão” na divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro entre os trabalhadores rurais, meus empregados. Por fim desde os cinquenta e dois anos e até hoje me tornei baiano e da Bahia fui “bandeirante” por todo o Nordeste. (Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará). Caçador de almas.
 

                                        De que me serviu essa “hégira brasiliana”? Vim aprender a “ser brasileiro” fora do Sul/Sudeste. Não como um turista, que vem para “explorar” maravilhas e encantos, mas como conterrâneo. De cada um desses lugares fiz minha “terra natal”, procurando entender seus regionalismos, aspirações e angústias.
                                      Comi das suas comidas, dancei nas suas festas, mas também compartilhei das suas dificuldades e misérias e ainda que tenha nascido falando “porra meu”, aprendi o dialeto do “uai” e hoje sou “poliglota nacional” falando “oxê” e “vice”.
                                        Minha profissão levou-me a ser um viajante frequente e daí conheci Mato Grosso, Amazonas, Pará, Goiás, Brasília, Paraná e Rio Grande do Sul, sempre tomado da mesma curiosidade. A de saber o que pensam os “diferentes brasileiros”. Minha paixão particular por História me fez entender do “misticismo” de um Antônio Conselheiro em Canudos, da luta na construção da Nação em Guararapes e da Independência da Bahia um ano após a do Brasil.
                                     Já dizia o Maestro Antônio Carlos Brasileiro Jobim, que “o Brasil não conhece o Brasil” e é isso o que nos enfraquece como povo e Nação. Não juntamos as diferentes sinergias regionais, para transformá-las na “força vital da brasilidade” e da cidadania. Poucos leram ou leem Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, João Cabral de Mello Neto, Catulo da Paixão Cearense, Guimarães Rosa e tantos outros cronistas, que tão ricamente falam da “alma brasileira”.
 
 
                                       Enquanto o privilégio de um idioma pátrio comum foi forte o suficiente para manter coesa a Geografia, a vastidão territorial continental separa e principalmente os “orgulhos regionais” perversamente dividiram e muitas vezes depreciaram um sentimento de brasilidade comum, fato que tem tido uso político para manutenção de hegemonias até nossos dias.
                                       Não é o discurso torto, que divide uma sociedade e sim o desconhecimento e a compreensão da realidade alheia subestimando-a inferior, que a condena muitos ao assistencialismo. Durante os Governos Militares foi feita uma renúncia fiscal de vários bilhões de dólares para Programas de Desenvolvimento do Norte e Nordeste, (Fundo 157, Finam, Finor e muitos outros), para implantação de projetos industriais. No final serviram para reequipar fábricas do Sul/Sudeste, que para lá mandavam em troca seus equipamentos obsoletos. Todos esses projetos faliram e caíram nas costas dos contribuintes. Coisas do Brasil de todos os tempos.
                                      O capital não tem ideologia, tem taxa de retorno e esse acordo entre as oligarquias econômicas e políticas nunca teve a vergonha de divorciar-se da “filosofia motora”, para “se casar” na divisão dos resultados. Como dizia um mestre na faculdade: O Capitalismo é a exploração do “homem pelo homem”, já o Comunismo é exatamente o inverso, no que tange ao “homem pelo homem”. O pragmatismo sempre vence a utopia e por isso Socialista, Comunista, Esquerdista, Direitista e Centrista sempre frequentaram a mesma “boca do caixa”. A do Tesouro Nacional.
                                      Já vivi o suficiente para descrer da “democracia justa, igualitária e fraterna”, que dita nossa Constituição e a decantam nossos políticos. Isso é demagogia estúpida, pois não existe uma “organização humana de iguais real” sob quaisquer dos aspectos. Apenas a garantia do alcance aos “direitos” à Educação, Saúde e Justiça, como objetivo mínimo e como o conseguiram muitas nações, já seria um passo sólido. Já na Economia, que as distâncias não sejam tão grandes. Justiça social não se impõe por lei, mas por luta diária DE TODOS, ricos e pobres. É a “lei do equilíbrio dinâmico”.
                                     É apenas isso, que um “bolsista nordestino” almeja. Falar em “justiça social” de um salário mínimo é o mesmo que assumir que um estômago da caatinga acostumado à carestia precisa de menos comida, que o pé se conforta com um calçado apertado, ou que “mais vale um rico cheio de saúde, que um pobre tuberculoso”. O Nordeste apenas apela por respeito e o reconhecimento de seu potencial e carências. Os últimos 20 anos mudaram radicalmente o perfil de Bahia, Pernambuco e Ceará, principalmente, mas ainda mantem em muito sua desigualdade de vida.
 
 
                                 Já segui e pensei todas as “ideologias” possíveis, mas a que hoje me move é a da “cidadania pragmática”, que depende exclusivamente de nós e não precisamos pedir licença aos políticos para praticá-la. Eles têm a protegê-los seu “corporativismo fraterno” e nós logo ali na esquina o tráfico de drogas “adotando” nossos filhos, os ditos “movimentos sociais” exigindo direitos pelos quais não trabalharam e apenas o exigem porque outros já o conquistaram.
                                   Somos os que têm que batalhar pela autossobrevivência e isso não se constitui em “vergonha”. A “classe média” é sempre a referência e o “alvo” imediato, principalmente do fisco e em uma convulsão sociais tomadas as propriedades dos “ricos”, imediatamente após a normalização eles serão ressarcidos regiamente, mas será a classe média quem pagará a conta e terá seus bens e direitos mais violentamente subtraídos. Estigmatizada atualmente como “elite”, ou se envolve diretamente na mudança dos costumes e organização política, ou certamente terá a “cabeça” recolhida em cestos para delírio da turba.
A História e Barrabás ensinam... Nem Ele se salvou...

 

Das percepções e pesquisas de
Antonio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania