domingo, 13 de julho de 2014


O mestre Antônio Figueiredo
traz mais uma aula de história
para o Brasilês na Sala de Protheus:

 
Gigante Dorminhoco...

 
“...Temo que tudo o que fizemos foi
acordar um gigante adormecido
e enchê-lo com uma terrível determinação...!”
 
Isoroku Yamamoto

                                     Sempre me intrigou o fato do “gigante” ter o comportamento de um “anão” e foi na História do Brasil e é evidente que não na Oficial, que fui encontrar algumas pistas.
                                    Duas coleções foram muito esclarecedoras para isso: A História do Brasil Nação, (Lilia Moritz Schwarcz - Objetiva) e Getúlio Vargas, (Lira Neto – Cia das Letras). Como ambas as obras se dedicam à História pós 1808, fui buscar em outras leituras sobre o Período Colonial, (1532 – 1808), o complemento do cenário completo.
                                   As perguntas mais constantes que recordo da minha infância são: O que você vai ser quando crescer? E Qual a sua vocação? Pois muita gente confunde as duas coisas, como se fossem o mesmo. O “que ser quando crescer” significa a “ação” a que se pretende dedicar e especializar, já a “vocação” significa que tipo de contribuição se pretende dar através da “ação”, que escolhemos.
                                 Quando crescer você pode escolher ser um engenheiro civil vocacionado tanto a “ganhar muito dinheiro”, como a “contribuir/inovar para o avanço da tecnologia”. É uma escolha funcional pessoal motivada por um “objetivo maior” eleito.
                                 Pois bem, tirando as escolhas infantis mutantes que bailavam ao sabor de qualquer fato novo relevante e da figura dele emergente e me concentrando nas que realmente fiz já a partir da adolescência, pela ordem, eu queria ser quando crescesse: a) um missionário na Ásia, b) um oficial da Marinha de Guerra, c) um físico nuclear e por fim, d) economista, no que realmente me tornei por exclusão e possibilidades.
                               Meus objetivos, pela ordem eram: a) salvar almas pagãs nas Ilhas do Pacífico Sul; b) defender minha Pátria; c) construir a primeira bomba atômica brasileira e d) ajudar o Brasil a se desenvolver e neste “Brasil Potência” fazer que houvesse plena satisfação social e “vida digna” a todos os brasileiros”.



                               O objetivo da “ação” está sempre diretamente ligado a um “benefício”, que muitas vezes não é apenas pessoal ou econômico, mas de todo um “entorno”, (coletividade), que pode visar a própria família ou à comunidade pertencedora. Não pode ser também de acumulação exclusiva, pois a “riqueza individual egoísta” não “faz crescer”.
                             Ação e vocação unidas geram riquezas, mas dissociadas só fracassos. Como diz uma linda parábola do Mestre: a cada um dos seus “empregados” o Senhor deu um “talento” e de cada um deles um dia tomará as “contas”. Dos que recebem mais talentos e recursos, mais será exigido.
Neste ponto se impõe uma pergunta: No que isso se aplica a um país?
                            Desde o descobrimento o Brasil é descrito como um país de riquezas imensuráveis. “Em se plantando, tudo dá”, como já proclamava Pero Vaz e Caminha na sua “carta de descobrimento”, contudo, por ser uma colônia portuguesa jamais pode fazer valer suas escolhas e mais principalmente teve muitas atividades proibidas para não concorrer ou quebrar privilégios portugueses.
                            Por isso a atividade extrativista inicial, (pau-brasil), assim que esgotada, foi seguida da atividade agrícola, (cana de açúcar) e por se ter tornado uma atividade geradora de muita riqueza, chegando a atrair a cobiça da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, tanto na Bahia como em Pernambuco, com o crescimento da concorrência antilhana, passou a dar ênfase à mineração, (ouro e diamantes).
                              Foi somente após a elevação a Reino Unido, que se começou a tomar decisões de geopolítica no país, todavia até 07/Abril/1831, que muitos dizem ser a efetiva data da Independência, (abdicação ao trono brasileiro por D. Pedro I), todas as decisões eram do exclusivo interesse estratégico de Portugal. Mesmo as lutas para a preservação da unidade territorial contra as muitas revoltas regionais obedeceram a esses interesses.
                               A rigor, somente após a ascensão ao trono por D. Pedro II, (27/Julho/1840) efetivamente o Brasil começou a “pensar” como uma Nação, mas a “nacionalidade fragmentada” e “mal curada” pelas disparidades entre o Sul, o Sudeste e o Norte/Nordeste já prediziam o fracasso dessas “primeiras tentativas” de Federalismo. Coube ao Imperador servir de “cimento” a essa “integração nacional”, pois que o “endividamento histórico” da Nação com a Inglaterra e a Guerra do Paraguai consumiu a maior parte dos recursos, que poderiam se destinar ao desenvolvimento integrado nacional.
                              Sobreveio a República e nos 124 anos seguintes, tivemos 45 anos de “ditaduras de ideias”, (1930/54 e 1964/85), 25 anos de “normalidade”, (JK e desde 1994 até hoje) e 54 anos de “crises” pela absoluta incapacidade de um “diálogo de união nacional” entre as frentes políticas protagonistas. As “caudatárias” de Pernambuco, Bahia, e Rio Grande do Sul e as “hegemônicas” de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo. O brasileiro não é um “bicho político”, é um “verme hegemônico”.
 
 
Foi sempre o “gigantismo territorial”, as “disparidades regionais” e a falta de um “projeto geopolítico nacionalista”, que retardaram o projeto “Brasil Nação”. Coube exclusivamente aos Governos Militares, na figura do Gal. Golbery do Couto e Silva esta tarefa e que deu ao Brasil o protagonismo de que passou a gozar no cenário internacional até os dias de hoje, apesar dos muitos erros estratégicos cometidos, principalmente a Reserva de Mercado da Informática nos anos 70 por interesses militares. (Dec. 70.370-1972).      
                       Desde os tempos coloniais e ainda baseados no sistema de capitanias hereditárias o Brasil sempre foi incapaz de se enxergar como um “todo”, tanto que as relações de cada parte sempre foram diretamente com a Metrópole. Os governadores gerais e vice-reis sempre tiveram mais papel fiscalizador do que administrativo na colônia. Consequências disso, nossos políticos sempre foram ensinados a olhar a “freguesia” e a dirigir-se ao Poder Central, exclusivamente para reclamar em prol dela.
                             Num sistema federativo real seria a somatória das capacidades políticas e de organização do Estado, que estruturariam uma “matriz de nação”, considerando seus recursos, (materiais e humanos), a infraestrutura necessária e os “objetivos nacionais permanentes” a serem perseguidos e alcançados. Como as riquezas são territorial e desigualmente distribuídas, aplicaria às regiões menos favorecidas políticas de “incentivo” ao desenvolvimento equilibrado em relação ao todo nacional, maximizando suas “vantagens competitivas”, para não cair em uma política assistencialista permanente. Isto é, no “coronelismo clientelista”.
                                Os “objetivos nacionais permanentes” deveriam contemplar a população com políticas de Saúde, Educação, Segurança e Ocupação Territorial e mais, “montar um arcabouço legal” competente a proteger os direitos e cobrar os deveres do cidadão e do Estado no sentido de que a força da “união dos recursos” atinja os objetivos da Nação como Estado Nacional e do “bem estar” da “sociedade” em particular. Este é o único pressuposto aceitável de uma “sociedade justa e igualitária”.
                                  Estamos nos aproximando de mais uma eleição geral e a verdade é que nenhum dos aspirantes apresenta quaisquer propostas, que resgatem o Brasil dessa “improvisação histórica”. Falta a qualquer candidato, muito mais que competência intelectual a “coragem estadista” de mostrar essa nossa “face necrosada” de Nação e propor os “remédios amargos” para sua cura definitiva. Falta aos “políticos do Congresso” e de todos os Legislativos o “espírito público” verdadeiro e enfim aos juízes de todas as instâncias o real desejo de “praticar justiça”. São oligarquias que não pretendem ou querem “mudanças”.
                                    O Brasil tem se transformado ao longo da sua história mais recente numa “fábrica de excluídos” e é isso o que interessa aos políticos. Getúlio Vargas cuidou do “excluído trabalhador” e começava seus discursos com o famoso: Trabalhadores do Brasil. Hoje por terem crescido de uma maneira exponencial os “excluídos genéricos” ou os “sem alguma coisa”, não me admiraria se algum deles começar a discursar: Excluídos do Brasil. Seria eleito, como tem sido nos últimos mandatos. Sucedeu-se à “fase do acumular para distribuir” a “fase do distribuir sem ter”.
 
                                   Já houve tempo em que o título de eleitor era a “declaração de bens”, todavia pelo menos neste aspecto evoluímos e muito já mudou no país. Certamente, se hoje ainda apresentamos tantos problemas, o eleitor é o grande responsável pela manutenção de um quadro político tão despreparado e descompromissado. Ainda que a Democracia Brasileira tenha sido construída “sem povo” por vontade exclusiva “de cima para baixo” conta hoje com uma classe média muito grande, mesmo sem contarmos a “recém-promovida”, que compartilha os mesmos problemas dos direitos, que lhe são negados.
                                Reza a Constituição: O Governo será exercido do povo, pelo povo e para o povo..., portanto cabe ao “povo” fazer valer esse princípio pela manifestação objetiva da sua vontade.
                            Não se vota por partidos e/ou salvadores da pátria... Vota-se por direitos.

 

Das percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania