terça-feira, 11 de março de 2014


A Violeta Ambiciosa!



 “... Ter como objetivo vital o triunfo 
pessoal tem consequências.
Mais tarde ou mais cedo, tornamo-nos 
egoístas, mais concentrados em nós mesmos, insolidários...!"

José Saramago – El Mundo - 1998


Todos nós trazemos, no âmago, uma ambição. Alguns a trazem de modo a satisfazer a própria sobrevivência, outros de forma desenfreada acaba influenciando a vidados outros. De modo negativo é claro.
Parodio nesta crônica a visão do grande poeta e escritor oriental Kalil Gibran ao fazer uma metáfora do ser com uma violeta. Sim a linda flor. Assim, quem sabe, conseguimos pensar um pouco em nossas próprias ambições.
Diz Gibran:

                 Era uma vez uma linda e perfumada violeta que vivia placidamente entre suas amigas e balançava-se, feliz, no meio das outras flores de um jardim solitário. Certa manhã , quando sua coroa estava ornada com gotas de orvalho, ela ergueu a cabeça e olhou a seu redor.  Viu uma rosa alta e viçosa, orgulhosamente ereta, que se projetava para cima, no espaço, como uma chama ardente sobre uma lâmpada de esmeralda.

               A violeta abriu seus lábios azuis e disse: “Que grande infortúnio o meu, no meio destas flores! Como é humilde a posição que ocupo na presença delas! A natureza me moldou para ser pequena e pobre... Vivo muito perto da terra e não posso levantar a cabeça rumo ao céu azul, ou girar para o Sol, como fazem as rosas”.

               A rosa, ouvindo as palavras de sua vizinha, sorriu e comentou: “O que você diz é muito estranho! Você é afortunada e, no entanto não consegue entender sua fortuna. A Natureza lhe concedeu fragrância e beleza como a nenhuma outra... Deixe de lado tais pensamentos, contente-se com o que tem e lembre-se de que aquele que se humilha será exaltado e aquele que se exalta será esmagado”.

            A violeta retrucou: “Você esta me consolando porque possui aquilo que eu anseio... Tenta me amargurar com a idéia de que você é grande... Como é dolorosa a pregação do felizardo para o coração infeliz! E como o forte é severo quando se erige em conselheiro do fraco!”.

             A Natureza ouviu o dialogo da violeta e da rosa. Aproximou-se e disse: “O que lhe aconteceu, minha filha violeta? Você tem sido humilde e suave em todos os seus gestos e palavras. Terá a Ambição entrada em seu coração e entorpecido seus sentidos?”. Com voz suplicante, a violeta respondeu: “Oh, grande mãe misericordiosa, cheia de amor e compaixão, eu imploro, de todo coração e de toda alma, qe atenda o meu pedido e me permita ser uma rosa por um dia”.

            A Natureza replicou: “Você não sabe o que está pedindo. Não tem noção da desgraça oculta por trás de sua ambição cega. Se fosse uma rosa, você estaria arrependida, e o arrependimento de nada lhe valeria”.  A violeta insistiu: “Mude-me em rosa, pois desejo erguer minha cabeça, bem alto, com orgulho. E, seja qual for o meu fardo, será de minha inteira responsabilidade”. 

A Natureza consentiu: ”Oh, violeta ignorante e rebelde, eu lhe concederei o que pede. Mas se a calamidade se abater sobre você sua queixa recairá sobre si mesma”.
            E a Natureza estendeu seus dedos misteriosos e mágicos e tocou as raízes da violeta, que imediatamente se transformou numa rosa alta, erguendo-se acima de todas as outras flores do jardim.

          Ao entardecer, o céu ficou denso de nuvens escuras, e os elementos em fúria perturbaram o silencio da existência com o trovão e começaram a atacar o jardim, desencadeando uma chuva pesada e ventos poderosos. A tempestade quebrou os ramos, arrancou as plantas pela raiz e partiu as hastes das grandes flores, poupando somente as pequeninas que cresciam junto da terra amiga. Aquele jardim solitário sofreu grandemente com a beligerância do firmamento, e quando a borrasca se acalmou e o céu ficou claro, todas as flores jaziam, destroçadas e nenhuma tinha escapado da fúria da Natureza, exceto o clã das pequenas violetas, escondidas pelos muros do jardim.

        Tendo levantado a cabeça e visto a tragédia das flores e árvores, uma das jovens violetas sorriu feliz e chamou as companheiras, dizendo: “Vejam o que a tempestade fez com as flores altaneiras!”. Outra violeta disse: “Somos pequenas e vivemos perto da terra, mas estamos a salvo da ira dos céus”. E uma terceira acrescentou: “Por sermos pobres de altura, a tempestade é incapaz de nos subjugar”.

          Naquele instante, a rainha das violetas viu ao seu lado à violeta convertida, atirada ao chão pela tempestade retorcida sobre a grama molhada, como um soldado abatido no campo de batalha. A rainha das violetas levantou a cabeça e chamou a família, dizendo: “Vejam, minhas filhas, e meditem sobre o que a Ambição fez à violeta que se tornou uma rosa orgulhosa por uma hora. Que a visão desta cena sirva de lembrança de nossa boa sorte”.

          E a rosa moribunda se moveu, reuniu as forças, que lhe restavam e calmamente disse: “Vocês são umas simplórias satisfeitas e resignadas. Eu nunca temi a tempestade. Ontem eu também estava satisfeita e contente com á vida, mas a satisfação agia como uma barreira entre minha existência e a tempestade da vida, confinando-me a uma paz doentia e a uma indolente tranqüilidade de espírito. Eu poderia ter vivido a mesma vida que vocês levam agora, agarrando-me amedrontada a terra... Poderia ter esperado que o inverno me recobrisse de neve e me entregasse à morte, que decerto chamará todas as violetas... Mas agora estou feliz porque me aventurei para fora de meu pequeno mundo e penetrei o mistério do Universo... algo que vocês ainda não fizeram. Eu poderia ter desconsiderado a Ambição, cuja natureza é mais alta que a minha, mas enquanto dava ouvidos ao silencio da noite escutei o mundo celestial dizendo a este mundo terreno:” A Ambição para além da existência é o propósito essencial de nosso ser”.

Naquele momento, meu espírito se revoltou e meu coração ansiou por uma posição mais elevada do que a minha limitada existência. Dei-me conta de que o abismo não pode ouvir a canção das estrelas, e naquele instante comecei a lutar contra minha pequenez e a ansiar por aquilo que não me pertencia, até que minha rebeldia se tornasse um grande poder e minha ânsia, uma vontade criadora... “A Natureza, que é o grande objeto de nossos sonhos mais fundos atendeu meu pedido e me transformou em rosa com seus dedos mágicos.”.

         A rosa se calou por um momento e, com voz enfraquecida, mistura de orgulho e realização, disse: “Vivi por uma hora como uma rosa orgulhosa. Por algum tempo, vivi como uma rainha. Olhei para o Universo com os olhos de uma rosa. Ouvi o sussurro do firmamento através dos ouvidos das pétalas de rosa. Haverá alguém aqui que possa gabar-se de honra igual?”.



          Tendo assim falado, ela baixou a cabeça e, com voz sufocada murmurou: “Morrerei agora, pois minha alma atingiu sua meta. Finalmente estendi meu conhecimento a um mundo que ultrapassa a caverna estreita de meu nascimento. Este é o desígnio da vida... Este é o segredo da existência”. Em seguida, a rosa tremulou, lentamente encolheu suas pétalas e expirou com um sorriso celestial nos lábios... Um sorriso de realização da esperança e do propósito da vida... Um sorriso de vitória... Um sorriso de Deus.

Você está contente com a vida que tem?
Pode pensar... Não Dói!


Paródia de kalil Gibran
Entendimento & Compreensões

Leituras & Pensamentos da Madrugada
Publicado no sitio do Grupo Kasal - Vitória - ES -
www.konvenios.com.br/articulistas
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