quinta-feira, 6 de março de 2014

A Consciência e o Ser!



“... O mundo fica mais perto de cada qual, não importa onde esteja. Cria-se, para toda a certeza e a consciência de ser mundo e de estar no mundo, mesmo se ainda não o alcançamos em plenitude material ou intelectual. O próprio mundo se instala nos lugares, sobretudo nas grandes cidades, pela presença maciça de uma humanidade misturada, vinda de todos os quadrantes e trazendo consigo interpretações variadas e múltiplas que ao mesmo tempo se chocam e colaboram na produção renovada do entendimento e da crítica da existência. Assim, o cotidiano de cada qual se enriquece, pela experiência própria e pela do vizinho, tanto pelas realizações atuais como pelas perspectivas de futuro..."

 - SANTOS, Milton O recomeço da história.
In: Folha de S. Paulo,  São Paulo,2000

                                     
                                    Dentre os vários conceitos que os pensadores nos deixaram, não existe nenhum outro tão especial quanto os relativos à consciência de ser, e ainda, à maneira como o indivíduo se revela no mundo (estar-no-mundo).  Um está diretamente ligado ao seguinte, pois somos qualificados como homo sapiens, ou seja, o ser que sabe que sabe ou o ser que tem consciência da sua presença dentro do próprio mundo.

                                      Sabedor desses fatos, o filósofo Nietzsche, levantou quatro questões fundamentais atinentes à consciência de ser no mundo em seu livro "Crepúsculo dos Ídolos", fazendo com que nós, seus interlocutores, possamos ter um momento de meditação e aprofundamento de vida. 

                                       A primeira questão fundamental que Nietzsche coloca é a seguinte: "Você corre à frente? – Como pastor ou como exceção? Ou (terceira possibilidade) como fugitivo?".

 Talvez, possa parecer que não haja muito sentido nessas palavras, porém, se dermos asas à nossa imaginação, com certeza poderemos contemplar o que estas indagações  querem nos dizer.

A nossa existência é bem curta, logo os sabores da juventude passam e, para que não olhemos para trás e sejamos pegos de surpresa pelo tempo, faz-se necessário que sempre estejamos à frente da nossa própria história, contemplando-a com firmeza e coragem, podendo vê-la como ela realmente é, sem máscaras ou maquiagem.
                                         Contudo, para se dar conta disso (ter consciência de),  é necessário ao ser humano,  compreender e perceber como é o seu modo básico de ser no mundo, que segundo podemos ver  em Nietzsche são três: o modo de ser como pastor, o modo de ser como exceção ou o modo de ser como fugitivo.  
                                         O modo de ser pastor é daquele que se dirige a si próprio (provisão é o seu nome), que sabe se conduzir, que tem a capacidade de guiar a sua vida aos pastos verdejantes e às águas tranqüilas; o modo de ser exceção é daquele que se coloca à margem da sua própria existência, aquele que procura sempre viver na dependência do outro (a história e o modo de ser do outro é sempre melhor do que o seu), aquele que não consegue se vir como autor e ator do roteiro da sua vida, aquele cuja palavra chave para o seu viver é a exclusão; finalmente, o modo de ser fugitivo, é daquele que apesar de se conhecer e saber o que pode fazer, opta em abraçar os medos e temores que o assaltam, com isso passa a correr, não à frente, mas correr da vida, fugir dela, buscar aquilo que muitos chamam de suicídio (evasão é a sua senha). 
                                        Na medida em que se entende isso, somos levados à segunda questão fundamental colocada por Nietzsche, qual seja: "És sincero ou só comediante? Representas algo ou és a própria coisa representada? – Por fim, talvez sejas apenas a imitação de um comediante...".

  Aqui o filósofo alemão, procura tornar mais clara à percepção de si cada pessoa pode ter na sua existência.  Se a pessoa é sincera consigo mesma, se ela não tenta se enganar, se ela não representa, se ela consegue esclarecer para si e viajar no seu próprio interior. Com certeza, esse indivíduo terá grandes possibilidades de ter consciência como é o seu modo de ser no mundo (pastor, exceção ou fugitivo) e, com isso, mudar e progredir.  Contudo, se a opção do sujeito for fazer de si mesmo uma grande piada, buscando com isso abafar os seus desafetos e desilusões, a tendência é prosseguir na cegueira e não resolver as suas pendências existenciais.

                                     Por essa razão, Nietzsche prossegue na sua explanação, dizendo: "É alguém que olha? Ou estende a mão? - Ou desvia o olhar e se afasta?...".  Nesta terceira questão fundamental, é enfatizado que a pessoa consciente de si, que tem bem explícito o seu modo de ser na existência e, que procura sinceramente, ver a sua própria vida, pode olhar e, em olhando, estender sua mão, mudar o seu ambiente, construir novas relações, manter-se firme nos seus propósitos e ser solidária nas suas ações.

   Quem não consegue se ver, segundo esta linha de raciocínio, não pode ver o outro ou, quando muito, caso veja, imediatamente, desvia o olhar e se afasta.   Esse redirecionamento do olhar, essa atitude de repelir o que está sendo contemplado, é uma reação de pavor.



 Quando uma pessoa desvia o seu olhar, é porque vê na imagem alheia, os fantasmas horripilantes que aterrorizam a sua existência.  Como resolver isso?  Através da luz da consciência.  Dar-se conta de quem se é, buscando uma constante mudança, vendo e percebendo o seu modo de ser no mundo, eis a resposta.
                                               Finalmente, Nietzsche conclui a sua ponderação, estabelecendo a quarta questão fundamental, quando fala: "Queres ir com os outros? Ou mais adiante? Ou caminhar só?... Importa saber o que se quer e quê se quer." Não obstante a troca e o intercâmbio com as outras pessoas ser muito importante, é primordial ter em mente que só a própria pessoa tem o poder para modificar a sua existência. 

Podemos ir com os outros, podemos seguir mais adiante, mas ninguém, nem mesmo os nossos seres mais próximos e queridos, podem tomar a resolução mais acertada para a nossa vida individual.  O conselho do outro é importante, ajuda graciosa dos amigos é relevante. Contudo, somente a própria pessoa pode saber o que se quer e quê se quer, ou seja, qual é o objeto do seu desejo e como fazer para alcançá-lo. 
                                               Deste modo, importa que tenhamos a cada dia, uma consciência clara e nítida de quem estamos sendo na nossa existência individual, para que com isso, possamos a partir desta consciência de si, modificar a nossa maneira de ser no mundo, a fim de que em fazendo assim, tenhamos uma perspectiva mais real e nítida de como são as pessoas e as coisas à nossa volta.  Certamente, essa postura diante da vida, poderá enriquecer o nosso cotidiano, tornando-nos pessoas realizadas e plenamente satisfeitas em existir.

Afinal pensar ainda não dói...!





Transpirado das Pesquisas de
 Marco A. N. Sales e
Crepúsculo dos ídolos – Friedrich Nietzsche
Publicado no Grupo Kasal – Vitória – ES –
www.konvenios.com.br/articulista

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