sábado, 9 de fevereiro de 2013

" Onde Está a Alma, Professor?






“... O homem precisa, novamente, 
aprender a trabalhar,
em vez de viver por conta pública...!”.

 Marcos Túlios Cesar, 45 aC


Primeiro dia de aula. Faculdade de Direito, em uma Universidade do Sul. Professor: Juiz de Direito (funcionário público):
“(...) Não estou aqui para ensinar nada. Já ganho o suficiente... Não preciso disso... Apenas me dá currículo. Portanto estudem e pesquisem e façam um concurso público. E vocês estão bem. Tiro 90 dias de férias, por ano, viaja para fora do país todo ano. Para que me preocupar com vocês (...)”.
Façam uma pesquisa com um concursado. Perguntas básicas: Sua vida antes e depois de um concurso público. Mesma turma. Professor. Promotor de Justiça (funcionário público).

Nietzsche, meu pensador favorito, dizia que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver e pensar. Ou seja, o educador é parte de uma tarefa mágica, capaz de encantar, o que é bem diferente de simplesmente “dar aula”, ainda mais somente para receber um salário ou composição curricular. Dar aula é só dar alguma coisa. Ensinar é diferente e muito mais fascinante.

Sinto-me completo citando e mostrando as palavras saídas de Ruben Alves, este sim, é um grande brasilês. Gosta de afirmar:
“Iniciem uma aula mostrando uma casca vazia de caramujo. Normalmente ninguém presta atenção nela, mas é um assombro de engenharia. A função do professor é fazer com que os alunos notem isso. Os gregos diziam que o pensamento começa quando a gente fica meio “abobalhado” diante de um objeto. Eles tinham até uma palavra para isso - thaumazein. Nesse sentido, a resposta é sim, pois aquele objeto representa um enigma. Você tem a mesma sensação de quando está diante de um mágico, ele faz uma coisa absurda e você quer saber como ele conseguiu aquilo. Com as coisas da vida é o mesmo. Ficamos curiosos para entender a geometria de um ovo ou como a aranha faz a teia. (...)”. Agora tentem imaginar o mundo das leis. Decorando códigos? Leis? Não há necessidade de professores. Há livros com os referidos códigos já comentados. Aprende-se mais.

Ruben Alves vai mais fundo, citando Adélia Prado: "Não quero faca nem queijo, eu quero fome". É isso: a educação começa com a fome. Ele vai mais longe: “Acontece que nossas escolas dão a faca e o queijo, mas não dão a fome para os alunos”.
E as faculdades os transformam em simples funcionários públicos. Não precisam nem pensar. Só cumprir horários. Só isso.
A transformação da educação, em um país como o nosso, passa, antes de tudo por uma transformação dos professores.

Não consigo imaginar, uma sala de aula – o nome já diz tudo – sem um instrutor, um orientador, um professor. Caso contrário, vou para uma biblioteca e não preciso dele. Quem sabe a faculdade não seria mais barata? Sim, quem inicia uma aula, com jovens sedentos de aprendizado dizendo uma asneira, como a dita acima, e por quem disse, não merece estar “roubando” o cargo, nem o título de professor.

Ele como professor, se espera, seja ótimo juiz. Pois o contrário não é verdadeiro.
Agora, por favor, imagine junto comigo: A surpresa do aluno ao ouvir “narrar” isso:
Profe o que eu faço? Eu não entendi o professor? Eu não quero ser funcionário público, quero aprender, me formar, e me esforçar para ser um profissional. Não importa onde vou trabalhar! Isso é para depois.

Nesta parte dizemos o que para este acadêmico? A afirmação deste grande sociólogo e psicanalista tem razão profunda: “É preciso mudar os sentimentos e as idéias na cabeça dos professores”, afirma Ruben. Não sabemos mais escrever, ler muito menos. Borges afirmava: “... assim como tem escritores ruins tem leitores mais ruins ainda...!”. Desaprendemos a pensar. Para a maioria dos próprios professores este gesto dói. E pensar não dói. Informações e mais informações; acesso a elas com a maior facilidade; velocidade de informação; mas as “cabecinhas” de professores, como os citados no início, parece estarem na idade média, a serviço do rei... Tudo mudou. Os alunos mudaram. A sociedade, como um todo, está mudando, mas este “tipo” professor ainda é o mesmo de antes. Bem, a grande maioria. Algumas exceções, e se tornam cada vez mais raras. O que mais surge é os “tipos” comentados no início. Mas notem para o cargo do referido “doutor”: Juiz de Direito. Será que ele age assim quando está julgando? Meu escritor brasilês, preferido, diz mais: citando alguns “mestres”: “Eu dou aula deste jeito e sempre funcionou. Vou continuar a dar aulas deste jeito”...

 Ao hábito também se pode dar o nome de preguiça. As pessoas não têm interesse e sim “interesses” egoístas. Há muitos professores que não deveriam ser. A única dúvida que ficou é a de que, se quiserem reclamar, estes acadêmicos farão como? Vão reclamar do professor doutor juiz de direito para a faculdade? E correrem o risco de não passar na dita “matéria do juiz”?
Mas, utilizando uma expressão que o “doutor-juiz-professor” vai entender: Tempus Fugit (o tempo passa). Ensinar é uma tarefa mágica, capaz de mudar a cabeça das pessoas, bem diferente de apenas dar aula. Arrogância, preguiça, ausência total de sentimentos, despreparo para a tarefa, ausência de vivência para ser e mostrar exemplos, repetitividade, falta de criatividade, completa falta de pensar, fazer por fazer...

E quem fiscaliza isso? Quem é o chefe do “juiz-professor” ou do “promotor-professor”? Em tempo: a Faculdade é paga, particular. Não é publica.
E eles ainda ganham para isso?

Utilizando Maquiavelli: “Não dêem poder para quem não tem cérebro...!”
Ofensivo ao bom senso (o que os antigos gregos mais utilizavam) de um tempo de tanta necessidade de orientadores com alma, essência e profundidade.
Afinal, pensar ainda não dói...


Das percepções diárias
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