terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

" Leitura - Prazer ou Obrigação!"






“(...) Nós, leitores de hoje, estamos ameaçados de extinção, mas ainda temos de aprender o que é leitura (...)!”1



                                       A leitura é polêmica? Não. O ato de ensinar leitura sim. Benveniste tinha razão quando afirmava: “Toda pessoa necessita de outrem para “vir” ao mundo e se desenvolver, pois o ”eu” não existe senão como reciprocidade de outrem; o “eu” isolado, na verdade, não é mais que uma abstração.” (1966, t. 1:26,74). Célia2 também quando aventura-se pela psicanálise para entender razões de tanto não aprendizado e uma tentativa de “busca” de motivos que levam a esta não leitura. A criança antes de se tornar aluno continua criança. Os mestres “esquecem” este detalhe e dão-lhe novo “rótulo” e um mundo estranho. O dos professores e suas tribulações e não da leitura.
                                      Cada pequeno ser, antes de se tornar aluno, possui um mundo a parte. A leitura deve acrescentar a este mundo todas as necessidades que devem ser descobertas pelas próprias dificuldades. Como fazer? Conhecer a criança antes de tudo. O seu mundo.  Fazer-se convidado para conhecê-lo. A sua forma de ver e sentir este mundo e não o do professor ou de literatura, tão estranha até para o próprio mestre. Leitura não é simplesmente “saber ler”, repetir palavras escritas. E esse sistema não está somente inserido no Ensino Fundamental, ele continua até a academia com os mesmos “sintomas” da ausência de empatia básica com o aluno.                          
                                        A citação de Célia, sobre Bettelhein, foi somente um enxerto e não a ideia completa. Não são os professores que “encontram o significado da vida para o aluno”, serão eles mesmos em futuro incerto. Querer “buscar” significado de vida para o outro é no mínimo arrogância e disfunção daquele que ousa intitular-se “professor”. Mostrar caminhos, os mais diversos possíveis para que ele encontre e decida? Sim. E a leitura poderá ser o caminho de entendimento e compreensão de toda esta complexidade do ser, se o professor estiver preparado, com ele mesmo, em sua autoestrutura, e somente depois com a pedagogia.

                                              O grande escritor e psicanalista, brasiles, Rubem Alves3 tem uma maneira, peculiar, de se referir a isso: “... E que outra maneira existe de se comunicar com as pessoas comuns senão simplesmente dizer às palavras que o amor escolhe?”, (...) continua o autor, citando Fernando Pessoa: ”Arte é a comunicação aos outros de nossa identidade intima com eles.”.

A identidade de cada um se constrói progressivamente, após o nascimento, no ritmo de suas interações com a mãe, com os demais membros da família, com os amigos, com os professores e, mais tarde, com as demais pessoas que encontrará no curso de sua vida.
                                               Ronaldo Laing4, nos excertos abaixo, de uma profundidade excepcional, põe em relevo as extraordinárias implicações das conversas, dos intercâmbios de palavras (1971: 115): “São os outros que nos dizem quem somos. Mais tarde, ou endossamos a definição que fazem de nós, ou tentamos nos desvencilhar dela... É difícil não aceitar a versão dos outros. Podemos nos esforçar para não sermos aquilo que, no fundo de nos mesmos, “sabemos” que somos. Podemos nos esforçar por extirpar essa identidade” estrangeira de que fomos dotados ou a que fomos condenados, e criar com nossos próprios atos uma identidade por si mesma, a qual obstinadamente buscamos fazer confirmar pelos outros. No entanto, quaisquer que seja, posteriormente, as vicissitudes, nossa primeira identidade social já nos foi concedida. Aprendemos-nos “a ser aquilo que nos disseram que somos.”. E esta responsabilidade, buscada pelo professor, através da leitura, se perpetuará ou não. Será benéfica, ou não. As formulações técnicas, “exigidas” pelo sistema, como ortografia, gramática, poderão fazer parte, mais tarde da vida do aluno, ou não. O que se esta buscando é uma formulação, própria de cada criança, para que se insira neste “mundo da leitura”. Apenas isso. Identificar cada “mundo” e inserir-se. Agora sim será tarefa do professor.

                                         Este dito “processo”, que depois se tornará mais comum, social, para o aluno, em sua gênese, talvez tenha sido esquecido há muito. Mas o professor não deve esquecer que uma era os transmite a outra sem estar consciente do processo como um todo, e os conceitos sobrevivem, enquanto esta cristalização de experiências passadas e situações retiver um valor existencial, uma função na existência concreta da própria educação.
Depois da sociedade – isto é, enquanto gerações sucessivas puderem identifica suas próprias experiências no significado das palavras.

                                      A pressão aos professores não é originada pelo futuro leitor e sim pelo “sistema” do qual ele faz parte. Em meio a toda tribulação em que o “mestre” encontrar-se, buscará em seu discernimento as “fórmulas” básicas de interação com o ser, após, a leitura, será uma consequência.

                                      O professor ainda tem, em sua memória genética, sistemas do “decorar”. Uma espécie de automatização educacional que ainda não se perdeu nas “nuvens escuras do tempo”. A aprendizagem de cor como meio para educar ou condicionar desempenhava um papel muito mais importante na sociedade medieval, onde os livros eram relativamente raros e caros, do que hoje, e esses preceitos rimados eram um dos meios usados para gravar na memória da pessoa. Hoje não. Temos acervos inesgotáveis, ao gosto de cada um. E a pesquisa de cada obra deverá ter a relevância com as necessidades de cada “serzinho” que se encontrará em sala de aula. E o professor, enquanto educador deve ter como obrigação, esta descoberta. Somente após terá condições, através de suas técnicas de aprendizado, levar o que julgar importante, e até o que o “sistema” exigir que seja feito.

                                      Nosso futuro – o futuro da história de nossa leitura – foi explorado por santo Agostinho (*), que tentou distinguir entre o texto visto na mente e o texto falado em voz alta; por Dante (*), que questionou os limites do poder de interpretação do leitor; pela senhora Murasak (*), que defendeu a especificidade de certas leituras; por Plínio (*), que analisou o desempenho da leitura e a relação entre o escritor que lê e o leitor que escreve; pelos escribas sumérios que impregnaram o ato de ler com poder político: pelos primeiros fabricantes de livros, que achavam os métodos de leitura de rolos (como os métodos que usamos agora para ler em nossos computadores) limitadores e complicados demais, oferecendo-nos a possibilidade de folhear as paginas e escrevinhar nas imagens. “Você não pode embarcar de novo na vida, esta viagem de carro única, quando ela termina”, escreveu o romancista turco Orhan pamuk (*) em “O Castelo Branco”, mas, se tem um livro na mão, por mais complexo e difícil que seja compreendê-lo, ao terminá-lo você pode, se quiser, voltar ao começo, ler de novo, e assim compreender aquilo que é difícil, assim compreendendo também a vida.

 Somente assim Benveniste[i], poderá ter suas razões. Mas em seu tempo. Necessitamos buscar as nossas. Para o nosso tempo.
Pensar não dói! A Leitura também não!


1. Alberto Manguel - Uma História da Leitura – SP - Companhia das Letras, 1997
2. Silva, Célia Ribeiro da – PG – UEL – Leitura no Ensino Fundamental – Prazer ou Tortura – Unipar.
3. Alves, Rubem – Se Eu Pudesse Viver Minha Vida Novamente – p.23 – Versus – SP – 2004.
4. Laing, R.D. Lê moi divisé, de la santé mentale à la folie, Paris, Stok, 1970 –
5. (*) Citados por Alberto Manguel, IBID.



Leituras & Pensamentos da Madrugada!
Publicado em 06.02 em: