quinta-feira, 25 de abril de 2013

" O homem e o amor!"


" O Homem e o Amor!"



“...Uma vez que você desenvolveu uma concepção
do amor suficientemente ideal, suficientemente
nobre e perfeita, você danou-se.
Nada será capaz, agora, de lhe bastar...!”.

Michel Houlellebecq – Rester vivant, 1977.


                            Qualquer folheto de agência de viagens dá uma ideia bem exata do que insistimos chamar hoje, por preguiça ou hábito, de romantismo. Recepção de tanga e cestas de frutas para recém-casados. Emoção climatizada de mãos dadas ao poente de uma baía qualquer. Ou nas praias do nordeste, para orçamentos não menos modestos. (infelizmente, para nós brasileses, ainda custa caro ir para o paraíso do nordeste) Uma pitada de Jean-jacques Rousseau diante dos coqueiros domesticados do fim do mundo.

                              A continuação é desafortunadamente bem conhecida. De volta à origem, os namorados da classe turística rompem dali a alguns meses. O amor, semideus para os gregos, tem data de validade. Cerca de três anos. Isso está escrito em toda parte, devendo, portanto, ser verdade.
Um encontro na internet mais tarde, e eis Laura e Pedro novamente com uma tasse de champanhe nas mãos num charter pra as Antilhas. Nesse ínterim, o parceiro que eles têm a seu lado mudou, mas isso é apenas um detalhe.

É assim que Bude Lancelin e Marie Lemonnier começam sua obra Os filósofos e o Amor.
                             Estamos aproximadamente 2400 anos atrasados. Sim, desde as primeiras concepções de amor, pelos filósofos gregos, a começar por Sócrates, seguido por Aristóteles e a definição de Amor Platônico, pelo próprio Platão, em seu Banquete, regado a todo tipo de permissividade, ao menos para os padrões de hoje.

2100 anos depois deles, Nietsche, o grande filósofo e concepcionista das relações, testou, em sua própria carne ou coração, ao conhecer a exuberante Lou Salomé, russa, uma “criatura extraordinária” e muito bela, em seus 21 anos, prometem, que pode até ter chegado a conclusões filosóficas similares à do pensador. Bastou tudo isso para que suas teorias caíssem por terra. E lá foi o grande filósofo cair nas “armadilhas” da nefasta paixão, o que o levou a alimentar por mais de 30 anos e entregá-lo a morte.

                        O filósofo sentia o coração “no cérebro”. Com Lou, perdeu claramente duas batalhas. Sabia que a exigência de ser amado é a “maior das pretensões”. Mas não é ele o grande Nietzsche? Aquele que vai partir a historia ao meio? Lou talvez seja uma bomba, mas afinal de contas, ela é dinamite.

Mas o que resultou de tudo isso? Para nós, hoje, muito. Vítima de suas terríveis dores de cabeça e do hidrato de cloro, seu ultimo aliado, agora sozinho para “escalar os abismos e sondar as profundezas”, Nietzsche gerou o seu Zaratustra. Dessa forma o gênio da vida, que era Lou, carrega seus frutos no ventre dos homens. Rasgando o véu, a mulher perfeita, dera-lhe uma nova perspectiva sobre o mundo. Ela cortara o ultimo cabo da nave deste “astronauta” do espírito, lançado para os cimos das neves eternas. Lá do alto detinha finalmente nas mãos a grande roda do destino da humanidade. Via que dizer sim a alegria é dizer sim ao mesmo tempo a toda dor, que “todas as coisas estão encadeadas, emaranhadas, amorosamente ligadas”. Tinha assim conquistado o amor da vida, aquele a partir do qual tudo é possível. Se amarmos á vida, chegou a dizer fazendo do amor o centro criador de todas as coisas, “não é por hábito de viver, mas por hábito de amar”.

Talvez ele tivesse perdido uma pele protetora nessa luta selvagem, mas outra, mais fina, mais sensível, surgira. Um poeta do século XX escreveu que aqueles que procuram só encontram se forem obsessivos ou excluídos. Nietzsche agora era os dois. E, como alquimista que transforma chumbo em ouro, o filósofo-poeta metamorfoseou os cacos de seu amor em prodígios. Todos os livros que escrevia com seu sangue eram assim outras tantas vitórias conquistadas sobre si mesmo. Exemplo de um amor altamente sublime? A tragédia de Nietzsche foi um deserto de solidão, disse Stefan Zweig. “Ó solidão, solidão, meu cais”, cantarola Zaratustra.  O homem é capaz de transformar qualquer deserto em um país fértil.

Martin e Hannah eram amantes recentes, no inicio do século passado. A situação é manifestamente complexa e dolorosa. Viveram uma relação na clandestinidade. Ele era 20 anos mais velho, casado e já com dois filhos. Ela era uma aluna de apenas 18 anos. Legitimamente, Hannah preocupava-se com o futuro. Para ele, ao contrario, os questionamentos eram vãos, o amor não deixava outra escolha senão “nos abrir para o outro e deixar ser o que é”. “Deixar ser o ser”, essa é também a exata definição de liberdade fornecida pela Carta sobre o Humanismo. Beaumarchais, em as Bodas de Fígaro, foi um pouco mais longe, em 1778: “Beber sem sede e fazer amor o tempo todo, é apenas isto que nos distingue dos outros bichos...!”. A única forma de amar definitivamente seria deixar cada um de nós sermos livremente sua maneira de ser.

Daí a citação de Santo Agostinho que acompanhara Arendt durante toda sua vida e acerca da qual não está descartada a hipótese de ter sido determinante na escolha do tema de sua tese de doutorado intitulada: “O conceito de amor em Agostinho”: “quero que sejas quem tu és”.  È nessa liberdade que a confiança se enraíza, nele reside à confirmação do amor. ““ apenas uma fé dessa natureza”, acrescenta Heidegger, “ que enquanto fé no outro é amor, consegue aprender efetivamente o tu”. Amar, dessa forma, é “aprender o tu”, deixando ao mesmo tempo ser, isto é, sem procurar possuí-lo. “Abandonado ao que nos supera não podemos nos apropriar completamente dessa adoção que nos é feita, mas apenas acolhê-la”. “Que o amor seja eis o regozijaste fardo que a existência é legatária, a fim de que por sua vez, ela possa ser”. Logo, o amor condicionaria a existência. Essa filosofia talvez não seja amável; o amor, entretanto, nela desempenha papel eminente. Nietzsche registrou, buscou o amor incondicional. Afirmou que a paixão é doentia, fruto da irracionalidade.

Mesmo com toda aquela genialidade caiu, exatamente, na irracionalidade, e morreu por ela.

Nas relações atuais, conturbadamente medianas e primitivas, não pensamos mais sobre o amor, afinal isso pode “doer” de uma forma ou de outra. Assim apenas ficamos, usufruímos, possuímos, e dizemos com facilidade “te amo”. Mais como uma angustiante forma de autotratamento de nossas angustias e apego do que qualquer outra tentativa de entendimento do que realmente somos e queremos.

Michel Houllebecq, em Rester Vivant, em 1977, ao citar Vida e Morte do Romantismo, referindo-se a Jean-jacques Rousseau, afirmou: “Uma vez que você desenvolve uma concepção do amor suficientemente ideal, suficientemente nobre e perfeita, você danou-se. Nada será capaz, agora, de lhe bastar...!”

Mesmo 2300 anos, aproximadamente, depois de tantas concepções e práticas sobre o amor, todos eles parecem terminar de forma trágica. As famosas tragédias gregas eram repletas disso.

Tristão e Isolda não tiveram final feliz, depois de um gigantesco amor. Jesus Cristo praticou o amor incondicional, por todos. E morreu.  Nietzsche registrou este amor incondicional, mas ele mesmo foi vítima deste amor. Romeu e Julieta, na concepção de Shakespeare, também não. Heloisa e Abelardo, símbolos dos namorados na França, foram canonizados pela igreja, mas morreram de tanto amor. Todos os amores perfeitos, e existiram sim, tiveram curta duração.

Será que não esta na hora de entender definitivamente o que é amar? Ou ficaremos apenas nos conceitos e práticas conhecidas de um “ideal” não existente?

Convivi com um filósofo gaúcho, que afirmava: “Ideal é igual ao real mais possível”. Ponto.

Ainda, para a grande maioria dos humanos, “pensar dói...” e amar, mais ainda.
La Rochefoucauld, em suas Máximas, em 1665, afirmava: “Aquele que vive sem loucura não é tão sensato quanto pensa...”.

Finalmente deixo para você pensar, o que disse Franz Kafka, em suas meditações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, em 1918: “ O animal arranca o chicote do dono e se vergasta ele mesmo para se tornar dono, e não sabe que isso não passa de uma fantasia produzida por um novo nó no rebenque do dono...!”

Afirmo: Pensar não dói... Quanto a amar... Continuo tentando!



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Publicado no Grupo Kasal – Vitória – ES –