quinta-feira, 1 de setembro de 2016


Necessário Ser Modesto!
- Ensaio de redenção -
“.... Nas pessoas de capacidade limitada,
a modéstia não passa de mera honestidade, mas em quem possui 
grande talento, é hipocrisia...! ”

Arthur Schopenhauer

O chão da rua ensina mais que qualquer universidade. O aprendizado teórico de nada serve sem o conhecimento prático da realidade, especialmente quando se vê o melindre mórbido e culposo de quem se reveste na autoridade titulada de acusador, como se fazer o certo demandasse pedido de desculpas. Diferente dos bancos universitários, a realidade promove um ensinamento maior do que a simples utilidade das tarefas que se realiza. Sedimenta o limite do que impulsiona a ação correta, sem claudicações emotivas de culpabilidade, sem dúvida e sem desculpa. Tanto faz juntar um dinheiro do chão e devolvê-lo ao proprietário ou acusar uma presidente da república por fatos ilegais consumados em seu mandato. O valor é o mesmo, a tarefa é a mesma e a culpa por fazer o que é correto, nenhuma. A ninguém é dado o direito de pedir desculpas por fazer o certo, muito menos chorar. 

O que se viu estampado no rosto titulado da advogada no polo ativo do processo que afastou a presidente Dilma é a culpabilidade encruada na identidade do brasileiro por fazer o certo. Como se existisse culpa pelo que fazia, houve até pedido de perdão. De um lado compreensível, visto que a advogada traia uma autoridade que simbolizava sua própria ideologia política, no clássico desespero de Raskólnikov (Crime e Castigo, Fiodor Dostoiévski) buscando redenção na sua confissão inútil perante uma inepta Sônia. Assim como Raskólnikov, a redenção interior foi alcançada, a grande lição residiria em buscar a redenção intelectual com restauração da ordem das próprias ideias políticas pela coerência com o que se aprende no chão da rua ou, por se tratar de advogada, "ralando a barriga" no balcão do fórum. 
Do outro lado, o melindre é o da fissura, aquela pequena fresta que se instala numa parede sólida que represa uma infinidade de valores políticos, pessoais e profissionais, impedidos de serem observados e assimilados diante do muro hegemônico simbolizado na presidente afastada. E aqui, a visão não permite outra ideologia, do muro para cá, tanto quem defende, quanto quem acusa, faz parte da mesma espiral ideológica de poder que se reveza em cargos políticos para saciar a sede latente de um povo submisso e impotente. Ou ninguém sente que tem algo errado? 

Uma “inhaca” nauseabúndica perene paira no ar. No chão a sombra de uma parede fissurada, mas ainda alta demais para que as pessoas comuns, aquelas que moldam as barrigas nos balcões, as mãos nas fábricas e a moral no comércio, consigam ver o que tem do outro lado. Por sinal, como na caverna de Platão, o que tem do outro lado do muro ideológico hegemônico é assustadoramente colorido para aqueles acostumados com o cinza da burocracia estatal brasileira. Entre a liberdade desconhecida e a tirania conhecida, optamos todos pela segunda, não importando se é PT ou PSDB, a liberdade ainda será um desejo latente na estrutura político-jurídica do Estado e a fissura hegemônica logo será concertada por um dos dois e/ou todos os outros reunidos em torno de intelectuais melindrosos, chorando pelo cumprimento da justiça desejada, mas nunca alcançada, justamente porque nunca aprenderam as lições do chão da rua. 
Para as pessoas que lutam no chão da rua estas lições são evidentes, mas como a vida não dá folga para ninguém, movem-se servis num coro mudo de lamúrias legítimas, submissas ao medo do colorido represado no muro hegemônico. A história real oferece sinais, entre dois presidentes afastados, urgente que lições devem ser aprendidas. Nem todas são claras. Os fatos são. O vácuo ético do impeachment de Collor foi ocupado pela ideologia hegemônica carente de autoridade política na época, arrematando pelos cargos ocupados até hoje, o muro das lamentações sustentado na metafísica de seus intelectuais repetindo os mesmos discursos opacos, desde a escolas infantis até a livre-docências que ocuparam as tribunas no Senado Federal no impeachment atual. Com a derrota dos outrora éticos, o vácuo se repete e a hegemonia segue. 

Será mesmo que ninguém sente que algo está errado? E que lições mais existem para serem aprendidas? 
De qualquer forma, antes aprender qualquer coisa, deve-se desejar o que está atrás do muro. Enquanto as pessoas continuarem usando o discurso oficial coletivista sem assumirem o medo do outro lado e se darem conta que o prato pronto servido na sombra do muro é só uma isca para a submissão existente, nenhum desejo real existirá e a história se repetirá com a vinda de mais do mesmo e nenhuma lição resta. Afinal, entre ouvir uma ideia diferente, pensar com a própria cabeça sobre ela e se encolher no discurso do coletivo, pelo medo, manter-se no grupo é mais seguro. E aprender algo novo, exige coragem solitária e humildade. Humildade de lembrar que a bandeira da ética está à deriva e qualquer um que a assumir não enganará mais ninguém com o discurso repetitivo das mesmas ideias sombrias em todas as esferas de poder, estatal ou não, inclusive na escola dos filhos.

É só pela rejeição total e irrestrita de qualquer pensamento que confirme a ideologia política atual que, talvez, as pessoas do chão da rua, os advogados dos balcões de fórum, as mãos calejadas de todo tipo de gente que move a própria vida ao largo da intelectualidade acadêmica hipócrita, poderão aprender alguma coisa. E, para aprender, necessário ser modesto. Talvez Modesto Carvalhosa. 
Enquanto isso, caracterizada a conduta criminosa, afastada a presidente da função, mas sem cumprimento pleno da sanção. A lei aplicada ao cidadão, para delírio do socialista de plantão, não se aplica à elite hegemônica da nação. E não se assustem nesta democracia de ilusão, quando não restar mais, nem mesmo eleição. 
Aí, desculpe dra. Janaína, talvez nem para a senhora caberá perdão.
Aguarde, pois, para o Brasilês pensar anda dói... E muito!



Entendimentos & Compreensões
Da cabeça pensante do meu amigo
E irmão de discussões filosóficas
Michael Nedeff Chehade – RS - 
Advogado & Filósofo por prazer.
Arquivos da Sala de Protheus
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