domingo, 7 de agosto de 2016

O Êxodo Deixou Saudades!

"... As coisas passam, e o melhor que fazemos é 
deixar que elas possam ir embora. 
Deixar ir embora. Soltar. 
Desprender-se.

Fernando Pessoa

A esperança ardia em nosso peito! Olhares eram de cumplicidade em tudo que acontecia. Nossa mãe não precisou ralhar (chamar a atenção) conosco. Apoiamos tudo que ela planejou e ajudamos a fazer as malas que ainda eram daquele material duro de papelão e couro. No embornal (Sacola confeccionada em tecido grosso lona,mescla,brim), 
com alças laterais do mesmo tecido, usada à tira-colo.) a farofa caprichada, uma bilha (vaso bojudo e de gargalo estreito, gerelamente de barro, usado para água, leite, vinho e outros líquidos potáveis; moringa.) com água fresca. Os móveis e meu pai iriam mais tarde, assim que vendesse a propriedade e cumprisse seu cargo de juiz de paz e da política local que nos levou partir naquela manhã. A oficina seguiria pelo trem cargueiro, junto com o restante da mudança. Muitos móveis e utensílios ficariam para trás.
Assim, num misto de alegria e saudade antecipada despedi com a alma de todos os pés de mangas, goiabas, figos, coco, laranjas, daquela imensidão de quintão que meus pezinhos conheciam muito bem; da água que corria, nossos balanços, o muro cercado por murtas e que por muitas vezes pendurávamos em seus galhos de cabeça para baixo. O quintal que andei recitando as poesias de Cecília Meireles, de Olavo de Bilac... Por onde anda Lúcia Casassanta?
Lugar onde no chão desenhava o rosto detalhado da filha que queria ter. Onde corríamos, brincávamos e passávamos o maior tempo de nossas dias. Era ali que uma de nossas irmãs mais nova treinava baliza (baliza de banda é uma mulher que se situa a frente da fanfarra efetuando coreografias.) 
para o desfile de 7 de setembro. Era também ali que brincávamos de casinha e nossa irmã comia os "bolinhos de barro" que fazíamos. Por isto ela tinha aquele barrigão e precisa muito de chá da erva de Santa Maria. Era aquela casa da esquina, com aquele enorme calçadão em volta, que servia de descanso a muitos.
O frondoso cajueiro, a serraria, as máquinas, a casa onde nascemos, a represa que o meu pai construiu... Os peixes, a piracema, o ribeirão, as pedreiras, a ponte. Tudo foi ficando para trás cada vez que avançamos mais pela estrada. O olhar de despedida no olhar do meu pai, o vazio da casa... Uma última olhada para as murtas e outro maior ao pé de manga rosa de cume destacado dentre os demais.
Despedimo-nos de tudo com os olhares fixos em cada casa, caminho, árvores, rio, a nascente onde se dizia que “o quati ia beber água”, aquela misteriosa e pequena casinha sempre fechada construída bem na beirada onde iniciava o fim de uma erosão... O caminho que cortava a Tiririca às margens do Rio José Pedro, aquela casa do outro lado do rio e que sempre me encantou. A vegetação!
O cheiro de capim gordura, do colonhão, de flores, do gado no curral, esterco verde. Chegamos ao "Cantinho do Céu", as janelas da fazenda de nossa irmã ainda fechada. Ainda dormia com os filhos. Nossa mãe não a deixou saber que íamos partir. Como num perene porta retrato, guardávamos lembranças de todas as casas, fazendas por onde passávamos e conhecíamos. 

Olhei o riacho, a porteira, os vaqueiros já trabalhando, selecionando o leite em latões. E o cheiro daquele lugar gostoso entranhou-nos pelas narinas em nossas mentes e corações. Tão cedo veríamos nossos queridos que ali ficaram ou sentiríamos aquele cheiro de mato, misturado com mangas, abacaxis, carambolas... Os coqueiros iam sumindo, a marca das rodas do veículo que ficava no chão, a poeira da estrada molhada pelo orvalho daquele fim de madrugada. Aquele amanhecer levava dentro de nós, a curiosidade de uma nova vida ainda desconhecida...
Assim, a Vila foi ficando para trás e nós, naquele Jeep do Sr. Etelvino alugado pelo nosso pai para nos levar, seguia pela rústica estrada desviando-se dos precipícios, dos enormes buracos e nós balançando de um lado para o outro, nos bancos de trás, que naquele tempo não era com estofados e vez por outra em cima das malas, misturadas a sacos de roupas, alguns vasilhames.
Chegamos à cidade onde embarcaríamos num trem da CVRD em busca da nova vida, de estudos, de trabalho para todos. Contudo, na minha mente puerilmente imatura, jamais poderia imaginar que sofreria tanto com a ausência dos pomares, das goiabeiras à beira da estrada. Que sonharia comendo cajá manga; que estava bem lá nas grimpas de um dos pés de mangas como sempre fiz ou que continuaria sonhando com as vacas de bezerro novo correndo atrás de nós ou cortando vassoura para varrer o quintal.
Durante a viagem ferroviária, com a nossa irmã professora, íamos anotando o nome de todas as estações e cidades percorridas. Enfim, chegamos à penúltima e os nossos corações batiam forte, saltitantes pelas novas emoções. Desembarcamos e logo avistamos o lindo comércio, as casas bem diferentes, bonitas, as ruas com calçamento... A esperança de uma nova vida. O êxodo. Olhei sorridente para a minha mãe e vi nela um misto de destemor, de coragem, de valentia a nos conduzir para o desconhecido promissor... Estudo e trabalho. Chegamos então à cidade grande!
Disse eu à nossa mãe, empunhando o diploma de Honra ao Mérito pelo primeiro lugar, oferecido por um delegado do CRC-MG, durante a colação de grau: - “Obrigada minha mãe, se não fosse a bravura da senhora, de lutar contra todos os preconceitos da época, e pelo olhar visionário, não teríamos estudado como sempre desejou”! A Vila é o melhor lugar, lá nascemos, mas não produzia o que precisávamos. Obtivemos êxito através da sua coragem e atitude que nos fez confiar no êxodo tão vislumbrado e ao mesmo tempo desconhecido, contudo, já como morada fixa em nossos brilhantes olhinhos. Lá fora podia nevar e o frio entrar pelas frestas de portas e janelas, mas a esperança que ardia em nossos corações, sempre esteve a nos aquecer!


Entendimentos, Compreensões e Histórias de 
Marilene Marques é mineira da Vila de Assaraí, 
Município de Pocrane, MG 
Contabilista Aposentada, ex-professora. Também trabalhou na Cia. Aços Especiais de Itabira ACESITA, atual APERAM.
Apaixonada e trabalhando com o voluntariado social. 
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