quarta-feira, 2 de dezembro de 2015


#PenséeNeFaitPasMal:

 Pensées de Pascal!

Mesmo que não tivesse descoberto o peso do ar, inventado a máquina de calcular ou demonstrado aos 12 anos de idade, proposições da Geometria Euclidiana, Blaise Pascal seria hoje um homem famoso, pela autoria de duas frases célebres: “Tivesse o nariz de Cleópatra sido mais curto e a face do mundo seria outra”. E... “O direito divino de um rei mede-se diretamente pelo comprimento das lanças de seus guardas e a credulidade do povo”.Assim pensava quem foi menino-prodígio, vítima de sortilégios na infância e de uma estranha doença que o matou aos 39 anos de vida. Viveu pouco, mas o suficiente para ir tão longe a seus pensamentos que – segundo alguns teólogos – atingiu as portas do inferno.Pascal nasceu sob o reinado de Luis XIII, a 19 de junho de 1623 - 19 de agosto de 1662, na Província francesa de Auvergne, de uma família, daquela boa burguesia cheia de dinheiro, de talento e de audácia, que começava a disputar com a nobreza “a calçada das ruas”.
Talento e audácia que demonstrou desde a infância a ponto de seu pai Etienne Pascal declarar-se textualmente “espantado”. Aos doze anos redescobriu a Geometria Euclidiana, sem a ajuda de qualquer livro, até a 32ª exposição (“a soma dos ângulos internos de um triangulo é igual a dois retos”). Aos 16 anos, compõe um tratado sobre as seções cônicas. Como Mozart, de fato Blaise Pascal foi um menino prodígio!Em 1642, seu pai Etienne Pascal, comissário delegado pelo rei para elevar impostos e taxas, se encontrava instalado há três anos em Ruão (Rouen), com seus três filhos (Blaise com 18 anos).  Numa Roma que ainda não possuía um centro, Ruão (Rouen) faz às vezes de pequena capital.
Vida política, vida religiosa e vida artística são aí muito intensas. Três anos antes uma revolução fora reprimida. Os sediciosos vencidos consolam-se do seu revés ouvindo os versos de um famoso poeta e dramaturgo de nome Cornelle, com o qual a caçula de Etienne Pascal vai tomar lições e a primogênita sonha casar-se. Quanto a Blaise Pascal irritado por ver seu pai desgastar-se em cálculos sem fim, nas suas funções de cobrador de impostos, simplesmente inventa a primeira máquina de calcular, ancestrais “registradoras” das casas comerciais e também ancestral remota dos cérebros eletrônicos dos nossos dias. Pascal, na esperança de encontrar melhores médicos para a doença que o afligia com intensas dores de cabeças e cólicas violentas, em 1647, vai instalar-se em Paris. O jovem de 24 anos, dedicado às Matemáticas e à Física, aos inventos práticos e aos pensamentos filosóficos. Não era considerado sábio como os outros e ainda hoje se hesita em classificá-lo: É ele um cientista, um filósofo ou um pensador religioso? Parece-nos mais seguro dizer que é tudo isso ao mesmo tempo, o que o torna único na espécie.  Pasteur, por exemplo, era um sábio de um lado e um cristão de outro. Estes dois aspectos de sua personalidade eram inteiramente distintos. Como sábio recusava-se a crer na geração espontânea. Como cristão, porém, admitia-a no episódio da criação do mundo. Acreditava no milagre, mas fora do laboratório.
Em Pascal, o cientista, o filósofo e o cristão, acham-se integrados o primeiro pensador moderno pelo sentido que tem do que seja o infinito: “O homem foi feito para o infinito.” Este pensamento da consciência do infinito revela a derrocada da visão medieval do mundo. (Guardini). É verdade que na época de Pascal, por causa de Copérnico e, sem dúvida, também, de Colombo, de Gutemberg e outros, a Idade Média começa a desabar. Mas, Pascal é o primeiro que se apercebe disso. A imagem do mundo que na Idade Média se fazia, era de um mundo essencialmente finito. Pascal dizia que toda a dignidade, que não é do pensamento, não passa de uma falsa dignidade. Quem, por exemplo, primeiro denunciou o chamado “direito divino”? Não foi a Revolução Francesa, foi Pascal. Que é que faz a autoridade de um rei ou do juiz? – pergunta ele. É o fato de que eles têm por si a força da tradição. “O ‘direito divino’ de um rei mede-se diretamente pelo comprimento das lanças de seus guardas e a credulidade do povo”. Este pensamento se aplica bem aos dias de hoje. Pensador da eficácia, que vai sempre aos extremos, não adotando meios medidas, Pascal chega mais longe que todos, contestando a eficácia dos nossos esforços quando se trata das coisas mais essenciais, como a felicidade terrestre ou a salvação da alma. É em vão que se invocará, diante dele, tal ou qual autoridade, seja de reis, de bispos ou do próprio papa. Quando se lançava a uma batalha, ele o faz inteiramente, sem considerações por pessoas, sem outros cuidados que o rigor do pensamento.
Afirmou-se a lenda da doença ser responsável pelos seus misticismos dos últimos anos e que Pascal, inicialmente um cientista, se havia apatetado sob o golpe do sofrimento, mergulhado na sombra do obscurantismo religioso. Nada mais falso! “O coração tem suas razões, que a própria razão desconhece”! A prova é que, ao mesmo tempo em que escreve humilhando sua própria razão, elabora um tratado da Cicloide e avança conceitos no cálculo das probabilidades.  Sua principal obra Pensamentos (Pensées) foi organizada postumamente, para uma primeira edição, representando a última fase de atividade mental do pensador que se iniciara com a Matemática, a Física (com experiências sobre o peso do ar e sobre as pressões nos líquidos), e prosseguira no campo da disputa religiosa com as Cartas Provinciais. Bem conhecida é a passagem dos “dois infinitos”. Pascal leva o leitor a considerar a organização de um inseto, as partículas que constituem essa organização, depois os reduzidos mundos que existem nestas partículas e assim por diante, comparando a grandeza do homem com o infinitamente pequeno.
Em seguida volta-se para a Terra, os planetas, as estrelas e o imenso macrocosmo do universo, onde a grandeza do homem desaparece e conclui “O homem é o centro ente tudo e nada”. O espaço é infinito em todos os sentidos, afirma e ao tratar dos “divertimentos”, ou prazeres do mundo. Pascal chega a antecipar a moderna psiquiatria ao analisar a ansiedade fundamental do gênero humano, que procura fugir ao terror do sentido trágico da vida, perdendo-se nos passatempos e diversões. Em relação ao nariz de Cleópatra: “Tivesse ele sido mais curto, e a face do mundo seria outra“.  Semelhante a esta teoria das causas imperceptíveis é a visão relativista que Pascal tinha de verdade, que ele reconhecia ser influenciados por fatores geográficos e mesmo climáticos:  “Estranha esta justiça que é limitada por um rio ou montanha – verdade deste lado dos Pireneus, falsidade do outro”.  “O homem não é senão um caniço, o mais frágil da natureza, mas um caniço que pensa. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água é suficiente para matá-lo... Sua grandeza, porém, está no pensamento”. Se esta afirmativa é válida, Pascal é de fato, como afirma o seu biógrafo Morris Bishop, “um dos maiores homens que já viveram”.

 

Dos Entendimentos & Compreensões
De Minas Gerais - Marilene Marques, Mineira,
Aposentada, Trabalhando com Voluntariado Social.
Fonte:
Enciclopédia Bloch
Ano 1/Nº5/Setembro de 1967

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