terça-feira, 9 de julho de 2013

Aprendendo a Morrer!





“... Pois bem, é hora de ir: eu para morrer, e vós para viver.
Quem de nós irá para o melhor é obscuro a todos,
menos a Deus....!”
 Sócrates, citado em Platão.


Para muitos é mais fácil morrer do que ver alguém morrer. Há semanas um ser muito especial me diz: - “... escreva sobre a morte...!”.

Inicialmente pensei na morbidez. Este ser especial deve estar triste. Ou simplesmente querendo entender mais da vida. Não acredito em coincidência. Afinal a morte nos ronda sempre.

Á nós, e aos que estão ao nosso lado. Às vezes, bem do lado. Muito do lado. Uma ex-aluna, uma pequena princesa, perdeu o pai, não faz muito tempo. E não sabemos o que dizer em um momento destes.

Na ultima semana, remeti aos meus amigos um texto do meu escritor preferido, da atualidade brasileira, Rubem Alves – Um Único Momento. O assunto: A morte.

Narrada, como somente ele sabe fazer. Utilizando a metáfora de um rei se transformou em uma crônica linda. Recebi centenas de respostas, que adoraram o texto de Rubem. Mas, que continuavam não entendendo a morte.

 ”.. Nisto erramos: -  diz Sêneca, filósofo latino, do ano 4 antes da nossa era – em ver a morte à nossa frente, como um acontecimento futuro, e quanto grande parte dela já ficou para trás. Cada hora do nosso passado pertence a morte....!”.

 Em meio a todos os e-mails, veio um, em especial. Também ex-aluna, amiga muito querida, minha homônima, e que nos correspondemos muito. Ausente, das correspondências, por um tempo, recebo dela:

“...A dor da saudade, do nunca mais, faz um nó sem explicação na garganta, queima, arde... A sensação do corpo frente a tudo isso é de morte também. Uma morte de uma pessoa viva, uma pessoa que morreu dentro de mim....!”.

Com essa morte, ela perdeu o grande amor que estava vivendo. Então está havendo outra morte: Uma morte em vida, em suas próprias palavras.

Desde o início dos tempos o homem tenta entender a morte. Ninguém o fez tão bem quanto os Gregos. Deturpamos muito, nos séculos seguintes, com as religiões, manipulando seus seguidores, com temores infundados de que, como forma, até de educação dos filhos, Deus castigava e ate “matava”.

Antagônico por origem. Quem cria mata? Em seu texto, Rubem Alves diz: “...Tudo que é belo tem de terminar. Tudo o que é belo tem de morrer. Beleza e morte andam sempre de mãos dadas. Eternidade é o tempo completo, esse tempo do qual a gente diz: "Valeu a pena”...!”.

 Mas porque temos tanto medo da morte? Por que ela nos apavora tanto? Minha amiga Josy, aqui do sul, classificou o ser humano com dois tipos de egoísmo:

Um do tipo: quero somente para mim e o outro o necessário, aquele que nos faz viver, aquele que temos que alimentar, só um pouquinho, porem distinguindo do primeiro.

Sim somos egoístas. Não choramos quem foi, choramos a nossa perda. Aquilo que não temos mais.

Então choramos diariamente. Um chefe que nos incomoda e nos tira do sério e mata nossa luz diária, um amigo que nos trai a confiança depositada e nos deixa mais pobre, morremos porque perdemos confiança em quem amávamos. Um amor que foi embora, de uma forma ou de outra.

Muitos “mortos” continuam vivendo. Ora para um, ora para outro. Sofremos igualmente. Mas quando for um amor e, ainda por cima, não ter mais a vida ao seu lado, então, como diz minha mana, morremos um pouco também, mesmo ainda continuando a respirar.

 Em Poesie Allá morte, no século dezoito, o poeta italiano Cardarelli disse:
“... Morrer sim / não ser agredido pela morte. / Morrer convencido de que tal viagem seja o melhor. / E naquele ultimo instante estar alegre / como quando se contam os minutos / do relógio da estação/ e cada um vale um século...” .

Mas não ajuda minha amada amiga. Não ajuda a entender a não vida. Não ajuda a entender a ausência, o não ter mais. O nunca mais abraçar, beijar, ou poder dizer “te amo”... Não ajuda. Não.

Nietzsche, em seu Zaratustra, disse: “... Atinge-se a verdade, através da descrença e do ceticismo, e não do desejo infantil de que algo seja de certa forma. O desejo da maioria dos seres de estar na mão de Deus não é verdade. É simplesmente um desejo infantil e nada mais. É um desejo de não morrer, um desejo do eterno mamilo intumescido que rotulamos de Deus.“.  É nossa eterna carência.

Quem sabe seja esta a imortalidade que Rubem fala em seu texto. Mas como explicar para quem perdeu alguém e vive em nossa cultura ocidental? Que não preparou ninguém para a vida, muito menos para a morte? Como dizer para minha amiga que perdeu sua paixão e uma vida, que ela está só?

Mas dizendo reconfortantemente? Sabe a resposta? Não. Precisamos aprender a viver para entender a morte. E este é o mais difícil dos jogos. Gosto do que Ronald Laing disse sobre isso:
“... Todos estão jogando um jogo. Todos estão jogando de não jogar um jogo. Se eu mostro a eles que eles estão (jogando), eu posso quebrar as regras e ser punido. Eu preciso jogar o jogo deles, de não ver que eu vejo o jogo...!”. Esta é nossa única aceitação para a morte. Um jogo para ver quem vence. E jogamos conosco mesmo.

Esqueço as horas passarem... À noite esta quieta. É como se ela descesse seu manto por sobre as horas perdidas e do cristal das retinas brotassem pétalas de orvalho que pelo catre se espalha fecundando despedidas...
Mas, vem Nietzsche, novamente: “... A recompensa final dos mortos é não morrer nunca mais...!”.
Para meus amados seres pensantes, os que querem entender um pouco mais e os que perderam algo, digo como diria um poeta, do sul:
Mirando a escuridão que me emociona e me faz retornar a mim mesmo, donde a saudade se aconchega e a lembrança já não pede licença, donde o amor é eterno e a angústia passageira faz morada eternamente junto do coração eu espero a morte. A minha morte.
Enquanto isso se vive. Ou melhor, tenta-se viver, entendendo-a mais. Quem sabe assim a morte não nos choque mais tanto, o tempo todo.
Vou pensar. Não dói! Afinal, não quero perder a ocasião de aprender a morrer.


*Em homenagem aos sentimentos
de Elizete Nobre – Rainha de Ébano


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Publicado no Grupo kasal – Vitória – ES –
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