sábado, 11 de outubro de 2014


“Alçou Voo...”
“... Ela era um anjo, e anjos não pertencem a Terra...!”
Caio F. Abreu
 
                                         Quando escrevo isto é um sábado nebuloso, aguardando a chuva que os produtores tanto se alegram... É véspera do dia das crianças que me alegra mais ainda... É véspera de Nossa Senhora Aparecida (que amadamente, na intimidade, chamo de “minha Santa Nega”), a padroeira amada do Brasil.
Confesso não sou religioso. Mas como bom reikiano, tenho uma fé inabalável...                             Poucas coisas me tiram do eixo de minha existência... De minha verdadeira missão enquanto humano... Algumas delas são exatamente ver uma criança chorando... Sofrendo... Foi neste dia que ao abrir meu correio eletrônico encontro uma mensagem dizendo tão somente:
“... A noticia que vou dar é a pior da minha vida... Nosso anjo nos deixou na terça-feira... Alçou Voo...!”.
                                      A pequena e entristecedora noticia vinha de uma amada amiga, cuja irmã – sofrendo há algum tempo da doença mais devastadora que o ser humano conheceu o câncer – Devastadora por que  é como se dissesse: “ ... vou te levar aos poucos...!”.
                                     E assim foi para este anjo lindo. Sim lindíssima. Não a conheci pessoalmente... Mas a sentia. Por sua irmã recebi uma foto dela sorrindo, quando ainda em tratamento, sem cabelos.. Sim carequinha como veio ao mundo, sorrindo parecia brilhar... Estava com uma beleza divinizada tão brilhante que deixava seu belo rosto ainda mais e incrivelmente maravilhoso para quem  olhava aquela foto. Lembro-me de tê-la deixado, a foto, como imagem no computador muito tempo... Para apreciar aquela beleza humana tão esplendorosa... E para lembrar-me das sutilidades e fragilidades de nossa própria vida... O quanto temos que aproveitar cada segundo em que, saudavelmente, reclamamos de qualquer coisa... Não gostamos de coisas simples e queremos o complicado... Não amamos quem está perto e geralmente queremos o que é inatingível... O que está longe.
                                      Peguei-me diversas vezes, interrompendo meus escritos... E como em busca de inspiração olhava para a foto deste “anjo terreno” e sentia sua força... Sua beleza tanto física... Quase me mandando mensagens de seu espírito.. De sua alma pura...
                                      Perdão a pessoalidade... Perdoem-me esta humanidade talvez demasiada, mas, meu pensador preferido dizia que quando estamos assim fragilizados pela perda de um ser tão especial, estamos envoltos em nossa humanidade mais pura (Nietzsche)... Mas fiquei egoistamente arrasado, mesmo sabendo que este dia chegaria... Sabendo?                                
                                   Sim, sem arrogância, mas sua amada irmã e minha amiga de alma sempre me informava como estava aquela a quem senti e a chamava de “anjo terreno”. Olhei para o céu nebuloso de  sábado e não contive lágrimas que teimaram, que foram mais forte que minha pseudo razão para aquele momento... E a frase lida... Parecia-me ter sido dita... Ouvida... Pois ecoava aos ouvidos...
“... Nosso anjo alçou voo...”.
Sim, assim com reticências... Sem ponto... Sem final... E olhando para as nuvens como se a procurasse... Como se eu pudesse vê-la... Voando singelamente... Brincando em meio às nuvens sorridente... Tal qual a foto na tela do computador... Aquele sorriso de menina inocente... Linda... Brilhante.. Agora estava voando... Retornando à sua origem.
                                              O mesmo pensador costumava dizer: “... O gosto de minha morte na boca deu-me perspectiva e coragem. O importante é a coragem de ser eu mesmo...!”. Não foi a minha, mas senti-me como se tivesse perdido algo importante... Algo que nunca tive. É possível? Sim. Aprendi a valorizar e ter coragem de enfrentar todos os percalços da vida, mesmo com muito mais anos que este “anjo”, exatamente pelo exemplo que ela deu em vida... Que ela mostrou enfrentando tal qual guerreira cada passo de sua jornada de jovem mulher, extremamente bonita... E com câncer.. Ela me ensinou que minhas pequenas dores são tão ínfimas que não devem nem ao menos serem reveladas que dirá sentidas ou manifestadas enquanto alguém enfrenta, sorridentemente, algo tão atroz...
“Nosso Anjo alçou voo...!”.
                                                   Certamente esta frase vai ecoar alguns dias em minha mente... Vou olhar para o céu e... Tentar encontra-la dançando entre as nuvens... Com o mesmo sorriso, mas agora sem nada para atrapalhá-la.. Sem câncer... Só perfeição... Como ela... Só generosidade extremada verificada e sentida por toda sua família com sua doença e quem os confortava era ela própria.
“Nosso anjo alçou voo...!”
                                      Vá anjo... Retorne a sua originalidade perfeita... E se puder se não for assim demonstração de minha fraqueza humana... Assim muita imperfeição... Por favor, vez por outra olhe para nós... Só um pouquinho... E, lance através de seu sorriso lindo um pouco de toda tua força... De tua energia divina sobre nós tão pequeninos... Tão fragilizados e na maioria das vezes nos achando com tanta importância quando não temos nenhuma se comparada a luta que deixou como exemplo para cada um de nós.
Continue... Vá... Voe... Não nos esqueceremos de você tão facilmente Vivian.
                                           Voe Vivian... E por favor, novamente, nos ame... Precisamos em meio a nossa pequenez...
                                            Voe Vivian... Seja agora e eternamente o que foi aqui em sua vida terrena... Um Anjo!
Bênçãos... E voe Vivian...
 

Em homenagem a um ser, enquanto humano,
exemplo de luta e de vida... Vivian Gurgel – Pará.
 
 

quarta-feira, 8 de outubro de 2014


As histórias fantásticas do
escritor Antônio Figueiredo
na Sala de Protheus:

 
O Bom Humor na Política!

 

 ... A cada militante da Democracia,
           pague-se seu soldo diário em         
  LIBERDADE...!"      
O autor
                           No Twitter alguns amigos têm me classificado como “troll”. E eu discordo. Nasci e fui criado em um tempo em que o exercício da política era temperado de muito debate e paixão, mas onde nunca faltou um “toque de bom humor”, de “inteligência crítica” e uma “língua democraticamente afiada”. Sempre foi o bom humor que construiu pontes e salvaram desesperados e desenganados.
                         Há onze anos enfrentei uma situação limite, na qual os “Pilatos médicos” diziam que a escolha entre a vida ou a morte era exclusivamente minha. Lembro-me dos amigos, visitantes, e só pelas suas caras, “porta adentro”, não era difícil de interpretar o impacto da minha aparência por seus sorrisos amarelos e abraços condoídos.
                          Era eu quem os animava e ria da situação. Não fazia isso por eles, mas por mim. Eu era a única pessoa que não podia desanimar e foi com “muito bom humor”, que eles visivelmente relaxavam e eu... Sobrevivia.
                          São muitos os casos na história política de quando a tensão cresceu explosivamente no calor do debate, que uma tirada de bom humor distendeu os ânimos e um bom acordo foi conseguido. A leitura de Sebastião Nery e sua série “Folclore Político” sobre a “política nacional” é uma leitura imperdível, pois descreve essa ciência do “bom debate”.
                           O Congresso Nacional teve passagens épicas. Conta-se que nos Anos 50, Carlos Lacerda (UDN) fazia um dos seus discursos verborrágicos e violentos contra Getúlio na tribuna e Alzirinha Vargas (PTB), filha do Presidente, insistentemente pedia um aparte, que Lacerda não concedia. Alzirinha não se conteve: Vossa Excelência é um filho da puta! Ao que Lacerda retrucou: Não me consta que Vossa Excelência tenha idade para ser minha mãe”. Já nos anos 90, Ulisses Guimarães retrucou Collor de Melo, que o chamou de “velho”: “Velho mas não velhaco”...
                          Conta-se do tempo dos Governos Militares, que Costa e Silva foi “batizar” uma embarcação, para o que lhe deram uma garrafa de champagne. Perguntou: O que faço com isso? Responderam-lhe: Quebre no casco. E ele quebrou a champagne no salto da bota. Outra é que, se criara uma “medida de burrice”: o TAR e assim contava-se: 1 militar, 2 militar... Outra era a pergunta: Como se mede um burro? Médici da cabeça aos pés... Dizem até que Médici e Geisel faziam questão de saber e rir de “quais eram as novas”.
                            Desde tempos imemoriais o “humor” era um tipo de “pesquisa de avaliação” do político e bem me lembro do programa de Alvarenga e Ranchinho na minha infância de cantigas caipiras e com auditório ao vivo. Quando perguntavam à plateia o tema e tinham por resposta: POLÍTICA! Debochavam: É cumpadi. Tão querendo vê nóis preso! As vítimas eram Jânio Quadros e Adhemar de Barros, (em SP) e Getúlio Vargas, (Gegê), e depois Juscelino do quadro nacional. Juca Chaves iniciou sua carreira nos anos 60, principalmente com a sátira política a Juscelino, (Presidente Bossa Nova).
                              É com tristeza que hoje as Redes Sociais destilem tanto ódio e manipulação da verdade, em vez de “bom humor” e principalmente, inteligência. As pessoas perderam a capacidade da inteligência crítica e principalmente, muitos “doutos sociólogos e humanistas”, que deveriam ser “formadores de opinião política”, “vendem” o conhecimento tradicional da História, reescrevendo-a convenientemente à “encomenda do freguês”. Bilateralmente, vale isto.
                               A abordagem lógica de tempos, circunstâncias e acontecimentos indica que muitos só têm uma orelha ou um só olho. Ou Esquerdo ou Direito, adeptos que são da “Teoria das Metades”. No “meio da missa” já comungaram a “opinião formada”. Temos o embate da “Privataria Tucana x Pivetagem Petista” e o debate de ideias tornou-se o embate dos “versus contra os adversos”. Puro lixo político. Um “sociólogo proeminente” esta semana me arguiu de onde tirei o conceito de “permeabilidade social”.
                               Nesta semana o nordestino recebeu muita solidariedade e principalmente “deboche”. Mas isso não importa, no Brasil nos últimos 200 anos apesar se ter investido mais no Nordeste, do que Israel investiu para fazer um “jardim no deserto” e o Governo dos Estados Unidos no Arizona e Novo México, o caminho dos “bolsos fundos” coronelistas por aqui não permitiu que “transbordasse” muito para chegar ao “semiárido”. Mas isso não importa, afinal demos lhes a Bolsa Família e os “marqueteiros” criaram o “fato novo”, que a campanha precisava.
                                  Como se dizia nos Anos 60, a era do “complexo de viralatas”, a que batizou Nelson Rodrigues: O brasileiro é o único povo que sabe que vai dar uma mancada e... Dá!
                                  É incrível se pensar que foi feita uma Revolução em nome da “moralização da política”, onde todos democratas foram derrotados, fossem os poucos da Esquerda e da Direita e a grande maioria de Centro e que mesmo “cumprindo a pena” de 21 anos de “severas restrições” às liberdades constitucionais não tenhamos aprendido nada. Ditadura e Democracia desperdiçadas.
                               Nem todo cidadão tem a habilidade de militar politicamente, mas todos têm a obrigação da “consciência política” da sua posição, obrigações e direitos na Sociedade e o justo retorno aos tributos, que paga. O Estado não é uma instituição de caridade e nem tampouco um “saco sem fundo”. É uma “organização voltada à administração do bem estar comum independente de todas as classes sociais”. Nem com mais direitos e privilégios aos mais poderosos e nem relegando à penúria da desassistência aos que tem “menos voz e influência”.
                                       Em outros tempos era alguém de sucesso, que nos inspirava a prosseguir lutando, por seu exemplo de superação de dificuldades. Hoje tudo se mediocriza, talvez como consolo da nulidade majoritária, que varre todos os segmentos sociais, incapazes de se manifestar e exigir seus direitos. Perde-se a liberdade pelas pequenas concessões de consciência, que se faz a cada escândalo novo, que explode. Sem indignação, não há “revolução”.
                                      Tenho a convicção, que este momento é de construir uma verdadeira “união nacional”. Aquela que nunca nos esforçamos por ter, pois nos acovardamos em permitir, que o Nordeste tenha sido desde o fim da escravidão o “estoque de mão de obra barata”, seja para desbravar o Acre, seja para construir São Paulo ou Brasília, o que nunca permitiu que construíssem o seu “Brasil Regional”.
                                     Tenho o privilégio de ter morado em periferias e vivido por 37 anos entre Minas Gerais e Bahia e o de conhecer o Brasil de Norte a Sul e de Leste a Oeste, principalmente em seu “miolo atrasado” e creio que apenas dando-lhes “esmolas”, jamais os recompensaremos pelo “Brasil dos outros”, que ajudaram a construir.
                                     É confortavelmente covarde achar que o óbolo na bandeja do padre ou do pastor garante a Salvação. Acalma a consciência, mas não nos livrará do inferno que tão competentemente estamos construindo. O Brasil é um pouco mais, que “nós e eles”...

 
Das vivências, percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – De algum lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania
 
 

 

segunda-feira, 6 de outubro de 2014


Eu Sou Desclassificado!


“... O homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte
e não um fim: o que se pode amar no homem é ele
ser uma passagem e um ocaso...!"
Nietzsche

                                 Os dias continuam, no sul, entre o inverno que parece não querer desistir nunca, as chuvas cujas, os agricultores dizem “nunca serem demais”... O florido de uma primavera antecipada... A política dita “nacional” quase uma “coisificação”.
                              Enquanto meus pensamentos perdiam-se neste emaranhado da rica e perfeita natureza e a imperfeição humana, chega um amigo.
Eis algo sempre necessário. De cumprimentos e curiosidades do dia a dia de um sobre o outro o assunto sofre uma pausa...
Meu amigo ergue os olhos para cima, como a buscar algo de significativo e simplesmente diz:
- Eu sou um desclassificado!
                                  A afirmação pegou-me, confesso, de surpresa. Afinal estava diante de um homem que se pode dizer vivido, trocou sua profissão – em nível federal – de altíssimo poder e ganhos, por outra mais inferior, porem que lhe propiciou viver muito melhor-. Tinha além de bela, uma esposa inteligentíssima e companheira em todos os sentidos. Ambos apreciadores de uma saborosa cerveja.
De uma cultura um pouco atípica para seres que encontramos todos os dias, este meu amigo, posso afirmar inteligentíssimo causou-me embaraço ao não saber como continuar sua afirmação.
Pretensiosamente pensando estar ele jogando-me um aforismo, lembrei-me imediatamente de Carlos Drumond de Andrade quando afirmava: “Ninguém é igual a ninguém. Todo o ser humano é um estranho ímpar”.
                                       Enquanto me perdia em alguns pensamentos buscando uma forma de continuar o diálogo. Ele, por sua vez, voltava os olhos para mim, como se esperando um questionamento.
Não o fiz. E ele continuou:
- Meu amigo: Sim, cheguei à conclusão que sou um desclassificado. Não me encaixo em classificação alguma.
                                      Entre estranheza de tão profunda afirmação e uma tentativa vã de encontrar uma ligação com o mundo deste sábio amigo, não me contive e saiu... Automaticamente:
-Explique, por favor... Sem me dar nó no cérebro...
E ele pacientemente continuou.
-Veja bem: Eu não me encaixo em nada do que existe atualmente em conceituação.
Politicamente, não sou esquerda nem direita, prefiro fazer gol de cabeça, metaforizou ele, com um breve sorriso e continuou:... Até porque em nosso amado Brasil não tem esta “coisificação” de esquerda e direita... Só interesses.
                                     Como homem não sou um ser sábio, inteligentíssimo, um filósofo... Mas também não gosto de me encaixar em uma pessoa dita “comum”...
... Como homem não preciso de outras mulheres tem uma que me “atura” (literalmente a relação dos dois é algo de causar inveja de tanto amadurecimento encontrado entre dois seres).
- Como profissional não tenho “títulos” apenas trabalho... Em algo que gosto... E que me garanta uma sobrevivência.
                                      Como homem, novamente, não sou alguém a quem pode-se chamar de bonito, de um verdadeiro gentleman (termo utilizado por ele, mesmo que humildemente, pois é um cavalheiro de fato).
Neste momento penso estar ele em uma espécie de “crise existencial”.
Enganei-me novamente.
Lá veio a resposta mesmo em questionamento algum
                                          Não estou preocupado em nada da existência atual, fora o que faço, os poucos amigos que tenho, minha mulher que não preciso de mais nenhuma outra... Meus prazeres – que é degustar uma boa cerveja – (só toma cervejas artesanais)... No resto da dita sociedade... (faz uma breve pausa) parece-me não haver nenhuma classificação a qual me encaixo.
Então, por consequência Eu sou um “desclassificado”.
                                        Nada do que tem aí de rotulação ou titulação me serve... Não preciso delas... E quer saber a verdade? Nem deles.
O que preciso é de alguns poucos amigos.
                                         Neste momento, ao final desta frase, levanta-se. Pede que eu faça o mesmo e diz:
- Posso te dar um abraço e um beijo?
Minha ação foi também repentina e automática. Levanto-me estendo os braços e ele me abraça fortemente e me beija na face e simplesmente diz:
- Ah, esqueci-me de uma coisa e não sei se isso é classificação: Sou teu amigo e amo você.  Boa noite!
                                          Simplesmente vira-se e sai com seu cálice de cerveja à mão (sim, toma cerveja em cálices especiais para cada tipo de cerveja).
Aquele discurso e a ação daquele amigo deixaram-me com os pensamentos em polvorosa...
Sentei-me frente a minha mesa de escrever... Emocionado... Confuso entre mil buscas que meu “Google” interior não achou resposta nenhuma.
Respiro fundo e chego a uma conclusão:
Também sou um desclassificado. Não sou apegado a rótulos. Não os aprecio. Por isso talvez não os tenha. Prefiro ser... Assim... Um simples ser vivente... Observador... E nestas observações aprender com seres sábios... Vividos... Experientes... E de suas experienciações tirar algo que acrescente a minha ignorância algo de bom... Algo de divino.
Tem razão bom amigo... Sou um desclassificado.

 
Transpirado de meu amigo Amauri...
De minhas interações e compreensões da vida.
Entendimentos, Compreensões e Pensamentos da Madrugada.
 

quarta-feira, 1 de outubro de 2014


Na semana mais importante do Brasil
a reflexão do escritor Antônio Figueiredo
na Sala de Protheus:

 
Agora, Só Nos Resta VOTAR...
“...O povo de Brasil, só vai aprender a votar,
quando aprender a pensar...!”

Adilson Santos
 
                                                 Apesar dos meus 69 anos esta é apenas a sétima eleição, em que me apresento à urna para escolher o “meu presidente”. De 1965, (aos 20 anos) e até 1969, (quando completei 44 anos), fui “roubado no meu direito”. Eu e alguns milhões de brasileiros ainda vivos e atuantes politicamente da minha geração e remanescentes das anteriores, que morreram sem voltar a votar.
                                                 Talvez muita gente não dê muita importância e provavelmente não tenha a consciência, do que isto representa e que isso já tenha acontecido algum dia na nossa história, da mesma forma que naquela época não sabíamos do ocorrido na “Era Vargas”, (1930/1945).
                                                Então como é de hábito, vamos a um “pouco de saudades” e relembrar alguns dos pleitos em que “não votei”, mas “participei” e dos pleitos que “queria votar”, mas as urnas “não estavam lá” e isso me leva à “minha iniciação” em 1960. Com apenas 15 anos, era o final do Governo Juscelino e cursava o 4º Ano do Comercial Básico, (atual 8ª Série), do SENAC em SP. Sempre é importante situar os fatos segundo seu tempo.
                                                 Ainda que os Movimentos da Ação Católica da Democracia Cristã, (Franco Montoro, Plinio de Arruda Sampaio e outros), já começassem a se evidenciar, essa politização ainda não aparecia nas escolas de 1º e 2º graus. A grande maioria dos nossos professores eram “meros instrutores” e a Política era um “tema anódino”, ainda que pelas ruas presenciássemos uma fervilhante campanha eleitoral. E o tema da Campanha em 1960 era..., a Corrupção.
                                              De um lado a “chapa governista” representada pelo Marechal Lott, tendo como vice João Goulart, que era o “escudo de JK”. Do outro lado a “vassoura higienista” de Jânio Quadros e seu vice Milton Campos. O símbolo de campanha de Lott era uma “espada” e a de Jânio uma “vassoura” e assim aconteceu a batalha da “espada contra o cabo da vassoura”. Para Adhemar de Barros o seu “trevo de 4 folhas” não deu sorte.
                                                Naquele tempo não tinha PESQUISAS ELEITORAIS, revista VEJA e nem HORÁRIO ELEITORAL OBRIGATÓRIO. A pesquisa de intenção de voto era demonstrada pela quantidade de “povo no comício”. As denúncias de escândalos eram feitas diretamente de cima do palanque à multidão e o horário eleitoral era “toda hora” com o candidato no "corpo a corpo" e "olho no olho" com o eleitor nas ruas. Entretanto, os grandes comícios sempre acabavam por ter cobertura radiofônica.
                                               A mobilização de eleitores fazia-se através da convocação em faixas anunciadoras nas ruas dos bairros e a entrega de cédulas, iguais às que seriam depositadas nas urnas. Os comícios eram feitos em praças públicas amplas e sem qualquer preparação especial, que não fosse a colocação das “cornetas de som”, pelas quais, algumas horas antes, já começavam a soar os “hinos de campanha”, gravados em discos de 78 RPM*, sempre com direito a muito chiado.
                                              O palanque via de regra era um caminhão com uma cobertura de lona. Mas o que efetivamente era importante no comício era a “qualidade” dos oradores, pois a retórica era a arma para ativar o “entusiasmo popular” antes da apresentação e discurso do candidato principal. Lembro-me em especial de Emilio Carlos, quem era o “aquecedor” de Jânio Quadros. E, evidentemente, não podia faltar o “bêbado inoportuno” bem próximo ao palanque, para questionar o candidato e fazer rir o povo.
                                            Bons tempos em que a Democracia era praticada e enchia as ruas e que apenas o carisma de um líder era insuficiente para fazer “nascer um candidato”, pois a este sempre caberia “abrir a boca” e convencer o povo, pois não existiam ainda os “marqueteiros”, nem “propagandas photoshop” construtoras de imagem.
                                               Depois disso veio 1965. O Movimento de 31 de Março em 1964 tinha como pressuposto a “faxina política” na “extrema radicalização”, que vinha acontecendo desde a subida de Jango Goulart à Presidência. O “discurso incandescente” de Leonel Brizola, cunhado de Jango, que prometia uma “organização paramilitar”, (“Grupo dos Onze”), cobrindo todo o Brasil com o recrutamento de quase 1 milhão de adeptos, (contas de Brizola), além das Ligas Camponesas de Francisco Julião, como “forças de resistência e suporte” as “Reformas de Base” do governo.
                                              Entretanto, foi à indisciplina hierárquica dentro das FFAA, principalmente dentro da Marinha, (Almirante Aragão e a Revolta dos Marinheiros através do Cabo Anselmo em um discurso escrito por Carlos Marighela), que arrastou o Alto Comando Militar para o “golpe” e que a princípio atendeu aos reclamos da sociedade, pois havia o compromisso de Eleições Gerais Livres em 1965.
                                              Houve intensa mobilização ao redor das candidaturas de JK, (construtor de Brasília), Carlos Lacerda, (remodelador do Rio de Janeiro) ex-governador recente da Guanabara, (Estado criado com mudança do Distrito Federal para Brasília), Jânio Quadros e Leonel Brizola. Contudo, o Comando Militar decidiu-se pela suspensão das eleições e a cassação dos postulantes. Essa foi à primeira eleição, que me roubaram.
                                             Seguiram-se 18 anos de “suspensão dos direitos políticos” do eleitor brasileiro na escolha dos seus Governadores e Prefeitos, (1982), pois até então eram indicados os “biônicos” pelos Governos Militares. Essa “abertura política” fez crescer a eclosão do movimento Direta Já, (1986/9), quando tivemos a última demonstração pública civil de que queríamos voltar a decidir nossos rumos por “vontade popular”, quando milhões participaram em comícios na Praça da Sé, (SP) e Candelária, (RJ).
                                             Hoje queremos uma “Democracia sem povo” e aconchegados no “colo” de um sofá e discutindo as propostas dos candidatos com os “pets” de estimação, pois no mundo moderno, vizinhos não se conhecem e não falam com seus vizinhos de porta, até mesmo em condomínios de apartamentos. É só prestar a atenção aos “grupos isolados” dividindo a “churrasqueira condominial” nos finais de semana.
                                           Muitos podem questionar que este é um “estilo de vida global”, mas vejamos o estilo da Democracia Americana. A apresentação dos candidatos postulantes à Presidência é livre, mas devem passar pelas “Primárias”, isto é, pelo crivo do “eleitor” filiado ao Partido, seja Republicano ou Democrata nos diferentes Estados da Federação.
                                              O vencedor ganha o “voto cativo” desses “delegados distritais” para a Convenção Nacional do Partido, donde sairá o “candidato oficial”, pela contagem majoritária dos votos dos delegados. As “primárias” começam 10 meses antes e a Convenção Nacional dos Partidos é feita a 5 meses da Eleição Presidencial. Ou seja, o debate eleitoral começa prática e oficialmente há quase 1 ano antes das Eleições.
                                               A “força” da Democracia Americana reside na capilarização dos Partidos Democrata e Republicano por todos os Condados e Estados Americanos e no Voto Distrital Puro e Majoritário dentro deles, que é a única maneira em que os cidadãos estão devidamente representados. São permitidos partidos a nível local, mas para eleições nacionais é exigida uma “estrutura nacional”. Em pequenos Condados é permitida a “gestão profissional” de um Prefeito.
                                                O mandato do Senador é de 6 anos e o dos Deputados Federais, (Câmara dos Representantes) é de 2 anos e somente a cada 4 anos coincidentes com a Eleição Presidencial, (ou seja, uma obrigatoriamente é no meio do mandato presidencial) e para concorrer o Representado deve possuir a “cidadania americana” nos últimos 7 anos.
                                                A quantidade de “vagas por Estado” é proporcional à sua população, que é revisada a cada 10 anos pelo Censo Nacional, sendo garantido o mínimo de 1 representante por Estado, mas o Representante nunca pode representar menos de 30 mil eleitores, pois os “Pais Fundadores”, (pais da Pátria) há mais de 300 anos sempre priorizaram a importância da “representação popular” nas decisões do Congresso.
                                                 Todos os Presidentes Americanos desde o início do século passado (exceção a Eisenhower) saíram da Câmara de Representantes do Congresso Americano.
Teríamos algo a aprender com eles?
                                                 Desgraçadamente, no Brasil, nascemos órfãos de “Pais da Pátria” e a minha experiência pessoal, (órfão aos 14 anos) e de milhares de brasileiros para quem sempre foi decretado que, “quem herda, herda e quem não herda fica na merda”, que mesmo assim “subimos socialmente” contra todas as possibilidades e só o fizemos pela “força interna da mudança”. No fundo o  que temos em nada  são explicadas pelos “slogans eleitoreiros”.
                                               Temos mirado na direção errada todos estes anos e as estruturas partidárias dissociadas da vontade dos eleitores, algumas oligarquias centenárias e outras mais recentes, nos enfiam goela abaixo “qualquer coisa” e para isto tem bastado um bom “vendedor de bom brill de mil e uma utilidades”. Temos votado com medo de perder o “muito pouco”, que temos, correndo o risco de perder o principal: nossos direitos democráticos e até a liberdade.
                                              Não se esqueçam nunca: que o Legislativo está lá, como Poder Constitucional Independente para “fiscalizar os Atos do Executivo” e não para “associado” dividir o “butim do assalto aos cofres públicos”.
                                            Vote em quem julgar mais habilitado para o exercício da Presidência, ainda que sob “forte emoção”, mas para o Congresso Nacional “vote com a razão” em pessoas, que vão fiscalizar o uso correto do “seu dinheiro” pago em impostos, para em troca receber “serviços” de qualidade, que são seu direito constitucional e que aos mais desassistidos sejam garantidas as “políticas assistencialistas”. Isto é constitucional do Estado e não “um favor” de Governo.
                                             Converse isso com sua diarista, motorista de taxi, serventes, pedreiros, faxineiros no seu trabalho e condomínio, camelôs nas ruas, centros comunitários nas igrejas ou nos campos de futebol. Seja um cidadão, que protege e luta por seus direitos, entendendo as necessidades dos mais vulneráveis. Caso contrário, passe o resto da sua vida falando mal dos “excluídos”, que se vendem pela Bolsa Família, principalmente os “paraíbas ou baianos” e “nordestinos em geral”.
Eles são os “culpados”.
                                             Ai você poderá pousar sua “consciência tranquila” no seu “travesseiro de penas”, cuja maioria não será de ganso.
Bom voto, cidadão brasileiro!
 

 

*Nota do Editor - 78 RPM (rotações por minuto) eram discos de metal, - também chamados jingles - e tocavam a esta velocidade e que depois foi substituído. Foi utilizado pelas emissoras de rádio até o final dos anos 70.

 

 Das percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania