domingo, 4 de junho de 2017

Abdução! - Charles Sanders Peirce -

#SOSEducacao:

Abdução! - 
Charles Sanders Peirce -

                                           

Houve momentos, no decorrer do século passado, que a filosofia se recusou a falar do mental sob o pretexto de que não podia vê-lo.
Hoje em dia, com as ciências cognitivas, as questões do conhecimento - o que quer dizer conhecer, perceber, aprender? - Tornaram-se centrais. Os progressos da ciência permitem tocar naquilo que antigamente era invisível, o que obriga a Semiótica questionar: como é que a linguagem estrutura a percepção que temos das coisas?
Peirce enfatiza a importância da abdução no avanço de teorias científicas. Os três modos inferenciais nos possibilitam pensar de forma estruturalmente lógica, de modo a garantir certa correspondência entre as teorias elaboradas e a realidade. Uma vez gerada e escolhida a hipótese, segue-se o processo de justificação que irá ocorrer no desenvolvimento dos raciocínios dedutivo e indutivo, proporcionando uma verificabilidade da correspondência entre a hipótese acolhida e as leis da natureza.
Segundo Charles Sanders Peirce, a abdução é o processo pelo qual a razão inicia o estudo de um novo campo científico que ainda não havia sido abordado. Esse tipo de raciocínio pode ser exemplificado, entre outras áreas, na criação do artista, nas pesquisas históricas e arqueológicas ou mesmo nos procedimentos de investigações criminais, que antes de iniciarem seus trabalhos só contam com alguns sinais que indicam pistas a seguir. Nestas descobertas, o raciocínio abdutivo se efetiva nas seguintes etapas: Percepção de anomalia; surpresa e dúvida; abandono do hábito anterior; geração e seleção de hipóteses que poderiam solucionar o problema.
Neste sentido, o raciocínio abdutivo se processa na simbiose entre a razão expressa no exercício da mente e razoabilidade constitutiva do mundo. Na relação entre a mente de quem raciocina e a natureza existe uma afinidade suficiente para que, na maioria das vezes, as tentativas na escolha de uma hipótese correspondam à regularidade observada. “A abdução inicia-se dos fatos sem, em princípio ter qualquer particular teoria em vista, embora ela seja motivada pelo sentimento de que uma teoria é necessária para explicar os fatos surpreendentes” (CP 7.218).
                                               
Os processos de inferência lógica se principiam na abdução, que se caracteriza como um tipo de raciocínio capaz de introduzir uma ideia nova através da geração de hipóteses provisórias, porém plausíveis; sem este tipo de inferência não poderíamos avançar em nossos conhecimentos. No entanto, o raciocínio abdutivo apresenta-se como o mais frágil e passível de erro, carecendo dos outros tipos de raciocínio para que se complete o processo de justificação.
No entanto, por meio da argumentação feita até aqui, sob a ótica da filosofia de Peirce, parece haver uma determinação mútua entre o geral e o particular, em que cada cognição é composta por elementos gerais e inserida em um contexto singular.
Esta dinâmica possibilitaria a aquisição de novas perspectivas e novosmodos de percepção na geração de novas hipóteses. Porém, desenvolvidas ao longo de um processo contínuo e imbricado.
Em síntese, a lógica, de acordo com Peirce (CP 5.171), fornece as normas por meio das quais cada método de raciocínio deve ser realizado. No argumento dedutivo a sugestão gravita em torno de que algo DEVE SER assim, na indução aparece a ideia de que algo atualmente. É assim, enquanto que na abdução esse algo observado PODE SER assim.
Nossa capacidade de formular questões não advém do nada, ou de alguma capacidade excêntrica, (CP 5.171), mas pode ser explicada por meio da lógica da descoberta, apontada e desenvolvida por Peirce.
A primeira etapa da investigação consiste na geração de hipóteses, em seguida faz-se a escolha de uma das hipóteses mais adequada e explanatória.
O próximo passo é de deduzir consequências a partir da hipótese escolhida e inserida no processo de descoberta.
A tarefa realizada pelo raciocínio dedutivo é dupla: análise lógica e explicativa seguida da demonstração derivada de uma lei geral aplicada às suas consequências causais.
A terceira etapa ocupa-se de verificar se as consequências subsumidas na dedução estão em conformidade com a experiência.
Peirce compreende a ciência enquanto um processo de desvelamento permanente, o que significa que nunca se chega à verdade última das coisas; o método científico, que envolve as operações racionais assim como uma leitura semiótica de realidade, apenas anuncia aspectos de algumas partes do que se observa.
Encontramos na estrutura filosófica de Peirce o indeterminado, assim como a disposição de olhar para o mundo da maneira como ele se apresenta, em seu instante único.
No próximo tópico analisaremos como a noção de interpretação desenvolvida por Umberto Eco se funda no conceito peirciano de abdução.
A interpretação como um caso de detetive
                                      
No começo de O Signo dos Quatro, de Arthur Conan Doyle, o leitor é informado do hábito do detetive Sherlock Holmes de tomar cocaína ao menos três vezes ao dia. Esse costume irritava seu ajudante Watson, mas o famoso detetive inglês assim justificava sua ação:
Meu cérebro, disse ele, rebela-se contra a estagnação. Dê-me problemas, dê-me trabalho, dê-me o mais obtuso criptógrafo, ou a mais intrincada análise e eu estarei no meu elemento. Dispensarei, então, os estimulantes artificiais. Detesto a rotina monótona da existência. Preciso ter a mente em efervescência. (DOYLE, 1991, p. 9).
A posição do detetive, como aquele que detecta e descobre a partir de certos indícios uma realidade inteligível, é comparável ao método de investigação proposto por Charles S. Peirce. Mas o que há em comum entre o detetive Sherlock Holmes e o multicientista Peirce?
Tanto o cientista quanto o detetive devem lançar mão de conjecturas, criar hipóteses para tentar desenvolver sua investigação. Ambos possuem um problema para revolver e devem procurar o caminho mais coerente, a hipótese menos extraordinária ou mais provável para seguir. A solução do caso depende de que a hipótese imaginativa desenvolvida pelo cientista/detetive seja verificada experimentalmente, confrontada com a realidade. Para a lógica que preside a invenção de hipóteses imaginativas Peirce deu o nome de abdução.
                               
Peirce fala em três tipos de raciocínio: a dedução, a indução e a abdução. O raciocínio dedutivo “prova, que algo DEVE SER, a indução mostra que alguma coisa É realmente operativa; a abdução sugere simplesmente que alguma coisa PODE SER” (PEIRCE, 2003, p. 220).
A abdução busca gerar uma regra, uma hipótese explicativa, por isso mesmo, envolve sempre um ato de interpretação.
Considerando a analogia construída entre o cientista/filósofo e o detetive Sherlock Holmes, é difícil separar quando o primeiro simplesmente “exerce seu vício” e quando está investigando um problema pertinente. A grande distinção entre descoberta e invenção torna-se problemática e o representacionismo, comum a Peirce e Eco, surge como um provável vício de valorização de meios e jargões epistemológicos. Ainda que abandone a ideia de estrutura em sentido ontológico, Eco toma sua miragem como norma cognitiva, uma epifania que faz mais pela religião do método do que pela abertura para a imaginação.
Para Umberto Eco, “no fundo, a pergunta básica da filosofia (como a da psicanálise) é a mesma do romance policial: de quem é a culpa? ” (ECO, 1985, p. 45-46).
Em famoso pensamento de Peirce, temos o entendimento de que o pensamento não está em nós, nós é que estamos em pensamento. Não reagimos mecanicamente às situações, de forma sempre igual. Estamos sempre em movimento, criando novos signos, aprendendo.
Logo, por lógica, pensar não dói....




Entendimentos & Compreensões
Convidado da Sala de Protheus
Das pesquisas e do pensamento do 
Nelson Valente 
Professor Universitário, 
Jornalista e Escrito
– Blumenau – SC – 
Publicado originalmente no grupo Kasal –
Konvenios – Vitória – ES – 
http://www.konvenios.com.br/info/verArtigo.aspx?a-id=28877#.WTSzZGjyuyI
Bibliografia e arquivos na Sala de Protheus
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