quinta-feira, 12 de junho de 2014

#PensarNaoDoi
 
 
Sociedade Brasilesa!
-Uma Família Desestruturada –

 
 

 "... A sociedade não é mais do que o desenvolvimento
da família se o homem sai da família corrupto,
corrupto estará para a sociedade...! ".
Henri Lacordaire

 

                                            O pensador francês Jean-Jacques Rousseau, em um de seus escritos, deixado para a posteridade e muito bem dito afirmou: “(...) O homem nasce puro e a sociedade o corrompe...!”.
                                             Utilizo ambos os pensadores citados, sem ser pretensioso, para, ao menos tentar, fazer uma análise rápida do que está acontecendo com a Família Brasilesa.

Sim como estado evoluímos de outra instituição um pouco mais antiga: a família. Senão vejamos:
                                           O governo, como forma administrativa de todo este país, amado por Deus, pode ser considerado nosso “pai”. A Justiça, um dos poderes mais fundamentais e necessários, nossa “mãe”.
O congresso, por consequência seriam nossos “irmãos mais velhos”.
A população, da qual me incluo os demais filhos desta imensa e amada família verde e amarelo.

Mas o que está acontecendo com esta família na última década?
Esta desestruturada. Não me atrevo a utilizar outro adjetivo. Como afirmei no início, não pretendo ser prepotente, apenas e simplesmente uma análise do que está nos acontecendo.

Nosso pai, não é um pai que um filho espera. Ele está igual àquele pai – alcoólatra, drogado, perdido na prostituição, com outras “mulheres”, esquecendo-se de nossa “mãe”.
                                        E nossos irmãos mais velhos (o congresso) que deveriam, por sua vez, “se colocar” no lugar do pai, estão seguindo o mesmo caminho. Ou seja, o exemplo dado pelo pai está servindo aos irmãos mais velhos.



Sim exatamente o mesmo caminho.
                                       Nossa mãe (a justiça) encontra-se perdida. Tenta de todas as maneiras, ainda, salvar o restante dos “filhos”: Nós todos! Mas está encontrando dificuldades terríveis.
                                        O “pai” forte, com apoio dos “irmãos mais velhos” – estes também fortes – parecem  quererem tomar conta de toda a “família” com ordens, com medo, com desmandos, com tentativa de compras dos “irmãos menores”.
                                        Estes “irmãos menores”, - todos nós – na maioria das vezes nos sentimos encurralados, enfraquecidos, temerosos. Por outro lado, por sermos de boa índole, como todo filho sempre ficará do lado mais fraco, a “mãe” – Justiça – e tenta de todas as maneiras, além de salvar a “mãe”, proteger os irmãos menores.
                                        Sim entre nossos “irmãos menores”, temos pessoas inteligentíssimas, sábios, generosos, educadíssimos, mas temos também, como toda família as “ovelhas negras”, e não podemos simplesmente abandoná-los à sua própria sorte.

Desta forma acabam se revoltando. E muitas vezes se enfurecendo e enfurecidos, talvez, nem sempre façam atos que sua “mãe” aprovaria.  Mas um tanto quanto perdidos, eles tentam salvar o que ainda lhes resta. A dignidade que foi aprendida com os avós (outros governos, mesmo de outras “famílias” – (países)), e saem e busca de soluções, muitas vezes sozinhos e desencontrados.
Não sei se fazemos (repito, faço parte dos irmãos menores) a coisa certa. Mas de uma coisa temos certeza. Sim, absoluta. Não é isso que queremos para nossa “família”. Queremos preservar nossa “mãe” (justiça), a todo  e qualquer preço.

Sempre defenderemos os mais fragilizados. Está na nossa natureza. Está nos nossos genes. Em nossa memória genética. E não abrimos mão disso.
Não queremos mais um “pai” e “irmãos mais velhos”, envolvidos e escândalos, roubos, tribulações de toda espécie que nossa “mãe” (justiça) sempre nos ensinou que é errado.

Temos alternativa?
Sim, confesso, buscando minha coragem natural mais forte, daquilo que aprendi que os valores, a dignidade, o respeito é que fazem de uma família ser, por sua vez respeitada e admirada. E não nos sentimos assim: Por isso digo a todos meus “irmãos menores”:
                                               Em Outubro, talvez possamos arrumar outro “pai” para nossa “mãe”. Não aguentamos mais vê-la assim, sozinha, desprotegida, ameaçada, vilipendiada, humilhada de todas as formas. É nossa fé que nos leva a, talvez, fazer algo que nunca pensaríamos. Mas precisamos de outro “pai” para nossa  desprotegida “mãe”.

Precisamos  renovar e fortalecer nossa imensa  família  - “País” – de qualquer forma. Não podemos perder o que julgamos de mais importante:
Precisamos do amor, da proteção, dos conselhos, de um “pai” amoroso, presente. Precisamos de “irmãos mais velhos “ – Congresso – que nos proteja, que estejam de mãos dadas conosco. Estamos parecendo órfãos.
                                           Um grande “tio”, parente distante, de outros tempos o “tio” Rui Barbosa deixou escrito nos “livros da família”:
“... Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou
desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseverança...!”.

                                              E os desiguais somos nós, os “irmãos menores”. Estamos nos limites de nossa energia. Nossa moral está abalada. Não aguentamos mais as desigualdades que estão fazendo com nossos “irmãos menores”, principalmente no nordeste.
                                               Não aguentamos mais a “deseducação” de nossos irmãos em todos os sentidos. Nossos “irmãos bem pequenos”, não estão mais sendo ensinados em casa. Na escola, os professores parecem somente se interessarem pelo “dinheiro” que vem ou não de nosso “pai”.
                                               Com raras exceções – estas sim vindas do Nordeste – os professores, nossos “irmãos mais sábios”, estão tirando do próprio bolso, seu suado dinheirinho para comprar merenda e material escolar para tentar, ainda, ensinar algo que valha a pena.
Mas como disse nosso “tio” Rui Barbosa, nós ainda temos muita perseverança e esperança acima de tudo.
                                                  Talvez muitas outras “famílias” não gostem e que Ele, (seja o nome que queiram dar outras “famílias”) nos proteja, mas nos queremos o “divórcio” de nossa “mãe”. Queremos outro “pai”.
Que seja mais amoroso, mais presente, mais preocupado com seus filhos. E não o que está aí.



                                                            E nossos “irmãos mais velhos”, - Congresso – Já são grandinhos. Eles que sigam suas vidas e deixem que façamos a nossa.  Mas com justiça, com moralidade, com valores, com dignidade que possamos manter nossa “família” – País-, e nossos “irmãos menores”, - toda a população -, Com mais fé em nós mesmos.
Do contrário sucumbiremos. Não seremos mais uma “família” e sim um bando. E não queremos isso

Queremos nossa “família” de volta.
Queremos nosso AMADO BRASIL, Verde e Amarelo de volta.

Um grande pensador chamado Thomas Paine disse: “... A sociedade é produto de nossos desejos, e o governo de nossas maldades...!”.
Então se o Brasil é produto de nossos desejos, não queremos mais um governo de maldades.

Quero minha “família” – BRASIL – de volta!
Você que é meu irmão menor... Por favor... Ajude-me?
Por favor... Ou será que estamos ficando órfãos?

 

 

Entendimentos & Compreensões
Afinal... Pensar não dói...!”.
Das vivências e percepções de uma atualidade triste
Publicado em:
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segunda-feira, 9 de junho de 2014


O Mestre e Amigo Antônio Figueiredo
Continua suas Histórias Vividas
Na Sala de Protheus:

 

 

MENINOS NA ESCOLA!




 “...Meninos... Deixem de proferir palavras tão vagas!
Tão jovens... E tão autoproclamados sábios...!”.

 Sócrates

 
                                           Em 1964/5 iniciou-se um processo de renovação profunda no magistério em São Paulo, pois com o crescimento do número de Escolas de Segundo Grau uma “nova geração” de professores começou a lecionar. Eram em sua grande maioria jovens na faixa de 24 a 27 anos recém saídos em sua maior parte das Universidades Públicas.

                                            Até então o magistério ainda pertencia à “velha guarda” no método e na idade e isso fazia das aulas em sua quase totalidade, salvo o idealismo de alguns “vocacionados educadores”, um fardo modorrento e pouco interessante. Extenuante para os docentes e desestimulantes para os discentes, pois o método consistia na transmissão sem questionamentos “ipsis literis” do “programa oficial” já obsoleto para a curiosidade e rebeldia da “nova geração”.
                                             As matérias de “Exatas”, (Física, Química e Matemática) seguiam a tradição da “decoreba”, (como se diz hoje), consistindo na exposição, aplicação de exercícios e aferição, sem quaisquer atrativos ou mesmo casos práticos de aplicabilidade, que incitassem o aprendizado. Poucas escolas tinham um Laboratório de Química e nenhuma para experimentos de Física.

                                              Foi a partir dos anos 50 que o “ativismo nacional-progressista”, (não se entenda isso como “esquerdismo”, que era associado ao “marxismo”), começou a influir e a desnudar a “realidade brasileira” a partir dos bancos universitários. Destacaram-se, para citar os mais influentes do pensamento da época: Josué de Castro, (médico nutrólogo), Florestan Fernandes, (cientista social), Celso Furtado, (economista), Monteiro Lobato, (escritor) e Gilberto Freire, (sociólogo e antropólogo) instalando-se assim um “realismo crítico”, que as oligarquias políticas e econômicas dominantes insistiam em taxar de “ideias comunizantes”.
                                               Essa foi a inovação trazida por essa nova geração de professores e que encontrou profundo eco nos bancos escolares, ocupados que eram por jovens recém-lançados no mercado de trabalho e oriundos das classes mais baixas da população, mas ambiciosa em ascender posições educacionais e sociais e que veio naquele futuro imediato a se constituir na florescente “primeira classe média” originária do “trabalho”.

                                                No ano de 1965, após 3 anos longe dos bancos escolares, resolvi retornar cursando o recém instituído “Científico” no Colégio Paulo Egídio na Vila Maria. Foi minha maior motivação a pressão exercida por meu “chefe” no Moinho Santista, (Eng. Ronaldo, a quem aqui rendo homenagens), pois ainda que exercesse um cargo técnico, (Cronometrista e Controlador de Produção) ele me instigava a que eu deveria aspirar mais. A falta de mão de obra técnica de terceiro grau na época era muito grande e como já comentei em crônica anterior, o Diretor Industrial havia se formado “engenheiro por correspondência” na International School.

                                           Minha grande surpresa começou na apresentação dos novos professores de Português, História, Geografia e Inglês, todos eles muito jovens e muito bem apessoados e evidentemente todos oriundos de uma classe média mais alta. A professora de Português em especial era um “piteuzinho” e logo deixou apaixonada a metade masculina da classe. Já a segunda grande surpresa veio do método de ensino.
 
 

                                          No estudo da Geografia introduziram-se os conceitos de Geografia Econômica, que muito além de estudar acidentes geográficos, rios, países e cidades, passou a disseminar informações sobre as características sociais, políticas e econômicas das regiões estudadas. Não foi pequeno o impacto da revelação das condições socioeconômicas em muitos lugares, (a situação da República de Biafra era humilhante), mas mais principalmente de algumas regiões brasileiras, inclusive no Estado de São Paulo.

                                          Já no estudo da História começou-se a fazer uma análise mais crítica dos eventos da “história oficial”, como a Inconfidência Mineira, a Independência e a Proclamação da República. Foi um tempo de pura iconoclastia histórica gerada pela desconfiança de que sempre preponderaram os interesses oligárquicos econômicos e políticos sobre as verdadeiras aspirações e reclamos populares nacionais, ainda que imanifestos ou despercebidos.
                                           É histórico o ditado “vão-se os anéis e ficam os dedos” e essa oligarquia sempre soube “dar anéis” para prudentemente manter com “mãos firmes” as riquezas hereditariamente alcançadas concentradas e indivisíveis.

                                            Entretanto, a maior das surpresas veio nas aulas de Português. A professora que já seduzia pela presença, passou a fazê-lo também pela atitude. As Análises Sintática, Lógica e Morfológica passaram a ser feitas sobre “letras de música” e o primeiro eleito foi Chico Buarque de Holanda e seu “Pedro Pedreiro” e isso se revelou um atrativo em uma matéria tão “sacal”. Além da análise propriamente dita discutia-se a beleza criativa estética e temática e isso enriquecia o debate e a criatividade do grupo.
                                           Além disso, a “linda professora” começou a se interessar pelas reivindicações e queixas dos alunos e delas se tornou “intercessora” junto à direção escolar e isso tornou o inusitado relacionamento ainda mais estreito e o interesse de participação dos alunos cresceu. Nesse tempo ainda não haviam grêmios estudantis secundaristas organizados.

                                             Como não deixaria de acontecer, o maior interesse por essas matérias tão “humanas” gerou uma “discussão política” até então inédita no meio daqueles jovens entre 16 e 19 anos e os debates sobre temas nacionais da época começaram a ser uma “matéria extracurricular” no Paulo Egídio, estendendo-se por recreios e pós-aulas. Jovens, que habitualmente eram alienados nas “discussões adultas”, passou a ser protagonistas e teóricos de decisões do grupo e dali irradiava para seu convívio social e profissional as novas ideias e ideais.
                                          Justiça se faça aqueles professores, que jamais tentaram doutrinar ou direcionar temas e convicções pessoais, pois ainda que jovens e tivessem “seu partido”, eram conscientes da sua responsabilidade de educadores, além do fato de que aquela juventude era sedenta de “aprendizado sem pressupostos ideológicos”. Eram verdadeiros “professores de cidadania”.
                                          Para “pôr mais lenha nessa fogueira” 1965 estava definido, (desde Abril de 1964), como um “ano eleitoral” com uma esperada eleição presidencial. Os potenciais candidatos JK, Jânio Quadros, Leonel Brizola e Carlos Lacerda já rodavam o país pregando suas plataformas e programas e é evidente que essa discussão entrou na “sala de aula”.
                                        A “jovem professora hippie” de Inglês fez tema das aulas a tradução de canções americanas e inglesas, afinal os The Beatles já causavam sensação também naquele Brasil de 1965, além de Elvis Presley, Neil Sedaka, Paul Anka e muitos outros. Era uma “juventude americanizada”, (ou “americanalhada” como classificava a Esquerda). Entretanto, também começou a falar do Movimento Hippie, suas raízes e sua relação com a Guerra do Vietnã e nos ensinou a canção “Eve of Destruction” de Barry McGuire e foi assim que começamos olhar pela “janela do mundo” e a conhecer Martin Luther King e sua luta pelos “direitos civis”.
 
 

                                         O ano de 1965 marcou também o início do engajamento político do movimento estudantil, mas não no nosso meio. Isso começou através da UNE e foi tipicamente um “movimento da classe média”, aquela que tinha acesso aos cursos universitários de alcance impossível aos secundaristas da periferia. Uma das molas impulsoras em São Paulo foi a passagem do show OPINIÃO, no qual era forte a influência de Oduvaldo Vianna Filho, (o Vianinha), Ferreira Gullar, Paulo Pontes e outros, dirigido por Augusto Boal e apresentando Zé Kéti e Nara Leão, (posteriormente Maria Betânia com o selvagem CARCARÁ, que levantava o público). Seguiram-se depois Liberdade, Liberdade e Arena conta Zumbi.
                                           Foi também o início da era dos Festivais Universitários de Música Popular e coube à TV Excelsior de propriedade de Mario Wallace Simonsen, que reunia no seu “cast” artistas notoriamente progressistas, a primazia da sua organização. O primeiro grande vencedor foi ARRASTÃO de Vinicius de Moraes e Edu Lobo e que lançou nacionalmente Elis Regina.
                                            Logo a seguir a TV Excelsior foi praticamente desmantelada por “inviabilidade financeira”, pois os anunciantes foram “convencidos” a não mais prestigiá-la e aconteceu quase simultaneamente o incidente conhecido à época como o “escândalo TIME-LIFE” e seus 6 milhões de dólares, que deram à Rede Globo o domínio da “mídia televisiva”, bem a calhar aos interesses dos Governos Militares.
                                           Pois bem. Foi um tempo frenético de muitas canções de protesto e uma juventude que agitava “punhos e slogans”, contudo, tudo acontecia muito distante. Era uma “juventude politizada”, que já “respirava teses marxistas” desde os Anos 30. (Carlos Lacerda e Roberto de Abreu Sodré foram “comunistas” na juventude). Já a juventude da periferia não ia e nem “cabiam em seus bolsos, ideais e realidade” esses Festivais...

 
 
Das percepções e pesquisas de
Antonio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania
 
 

 

 

quinta-feira, 5 de junho de 2014


Viver é Seguir!
- A metáfora da Água –
 
 
“... A maioria pensa com a sensibilidade, eu sinto com o pensamento.Para o homem vulgar, sentir é viver e pensar é saber viver.Para mim, pensar é viver e sentir não é mais que o alimento de pensar...!”.
 
Fernando Pessoa

 
Se fosse por mim faria, talvez, um sacrilégio à língua pátria que tanto amo, mas gostaria, muitas vezes de ser tal como a água... Não ter um ponto final. Ele indica o término do discurso ou de parte dele.

Não gostamos de finais... Amamos inicios, recomeços, continuidade...
Assim as palavras são como uma fonte d´água.  Contínua... Permanente.

Ela, a água, nasce de uma fonte. Esta vem da profundidade, das correntes subterrâneas. Puríssima. Nossas palavras também. Vêm não somente de uma inspiração. Ao contrário elas transpiram da alma.

Em seguida formam uma pequena poça para logo em seguida começarem a escorrer.
De nossa “fonte”, pequenos vocábulos se tornam frases.
Da fonte começa um pequeno córrego. Assim como as palavras. Elas têm vírgulas, reticências... Gosto das reticências elas indicam continuidade...

E lá se vai um pequeno “fio d´água” seguindo... Escorrendo. Contorna pedras, faz curvas...
Iguais nossos pensamentos antes de formarem as palavras para algo ser dito.

Em seguida continua a escorrer tal como quando transpiramos sentimentos...
E continua... De um simples córrego, vai se tornando maior.., Vai formando um rio...

Nós somos assim... Às vezes despencamos ladeira abaixo... A água forma uma cachoeira, uma pequena ou grande queda...

Nós também temos nossas quedas... Às vezes descemos ladeiras e esquecemos nosso “freio”... Não “brecamos”... E caímos...
A água não precisa se levantar... Ela continua... Nós ficamos nos lamentando usando adjetivos, advérbios... Muitas vezes interjeições de raiva ou descontrole emocional...



E lá vai a água formar grandes rios... E continua... Vez por outra para.. Forma lagos ou grandes porções que parecem paradas... Apenas parecem... Por baixo, onde os olhos não veem... Ela continua seu caminho... Passa por grandes florestas... Por cidades... Banha os seres vivos... De todas as espécies... Em suas cachoeiras ainda lança um véu para que o excesso se torne uma névoa... Evapora e toca mais seres vivos ou não.

As pedras no caminho? A água molha... Tanto até criarem limo. Se for muito grande as contorna. Nós não. Temos a tendência de ver como um ponto.
Ora, um ponto é um final. Vai necessitar começar. Ou recomeçar.

Você já notou que quando fala ou escreve faz parecido... Apenas parecido com a água!

De seus sons transformam em letra, estas se transformam em vocábulos (ou palavras se preferir). Vários vocábulos vão formar uma frase (eis nossos córregos ou riachos). Várias frases vão formar uma oração. Aquela que parece um lago.

Por baixo deste nosso “lago”, escorrem mais transpirações de palavras, frases lotadas de sentido e sentimentos... Muitas delas com significância que dão significados para nos tornarmos significantes... E formamos um período para em seguida completarmos um parágrafo.

Mas muitas vezes paramos por ai. Não sabemos continuar. Não só na linguagem escrita ou oralizada... Mas na vida.

Quando nos esforçamos conseguimos chegar a uma somatória final:
 O Texto!

Ufffaaa... Conseguimos! Mas geralmente paramos. A água não.
Ela continua e se torna quase infinita quando alcança o mar e se mistura e se torna única. Gigantesca. Poderosa.

 Se vier os ventos ela se agiganta e se torna mais poderosa ainda. Bate violentamente contra os rochedos e traz vida.

Nosso mar é um texto. Ou uma vida. A diferença é que nos acomodamos na grande maioria das vezes. Conseguimos o que as vírgulas e os pontos nos deixaram e, geralmente, não queremos mais reticências... Elas indicam continuidade. E nos gostamos de comodidade. Nos rotizamos. Automatizamos-vos.
A água não. Ela mesma no mar evapora-se... Sobe às nuvens... Acumula-se... E volta a cair, a trazer vida. E recomeça. Outra vez. Muitas vezes. Infinitamente.

Por isso amo tanto as reticências... Elas indicam a continuidade da vida.

 Com adjetivos maravilhosos que nos aproximam... Com qualidades de uma gramática que impõe a genialidade da comunicação.

Ou como diriam o mestre Nelson Valente: Se transformam em símbolos. Deles criamos signos. E através deles nos identificamos com significados.
 
 

Assim como a água Viva... Esqueça um pouco os pontos. Eles são finais de textos. E não de uma vida.

Viva... Pode doer... Mas também pode sorrir... Pode amar... Pode ter compaixão... Por ser útil... Pode ajudar... Pode fazer outros felizes.

 E destas convivências é que tanto necessitamos. Assim como o Mar da Amizade.
Não deixe que nenhum obstáculo (pedras ou pontos) interrompa seu texto (sua vida).
 

Ela vale a pena ser vivida... E pensar... Não Dói...

 

 
Entendimentos & Compreensões de Vida
Publicado no Caderno de Educação
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segunda-feira, 2 de junho de 2014


Antônio Figueiredo Continua Suas
Histórias Vividas nos Anos 60
na Sala de Protheus:

 
 

“Meninos no Front...!"
 
 
 
“...Nunca se desespere antes,
 nunca comemore antes
e nunca abandone seu posto
antes do fim da batalha...!”.

 Sara Westphal
 

                                            Foi em Outubro de 1963 que depois de 2 anos trabalhando como bancário e a convite de um amigo, (diziam que era “comunista”), assumi o Departamento do Pessoal em uma pequena indústria metalúrgica no pico da ebulição de um tempo muito conturbado. O Brasil fervia politicamente após a restauração do Presidencialismo de Jango Goulart e a “voz das bases” tensionava o “ambiente político”, misturando às “reivindicações nacionalistas genuínas” e dos partidos de orientação católica a estridência dos megafones de uma “propaganda alienígena”, que era fortemente suportada pelos sindicatos mais poderosos.

                                           Como diria o cronista Sérgio Porto, (o Stanislaw Ponte Preta), anos após em 1968 o “movimento progressista” ou o “esquerdismo brasileiro” da época era um verdadeiro “samba do crioulo doido”, pois nele misturavam-se o comunismo ateu de Lenin, o nacionalismo nazifascista de Getúlio Vargas, o nacionalismo fascintegralista de Plinio Salgado, (a diferença estava na cor das camisas) e a Ação Católica.
                                           Este movimento católico de vanguarda, que pregava: ”Salário não é renda” e “Nem o Comunismo totalitário e nem o Capitalismo opressor” fundado por André Franco Montoro era o que trilhava uma via mais democrática. Montoro que era do Partido Democrata Cristão – PDC foi Ministro do Trabalho e Previdência durante o Governo Parlamentarista de Tancredo Neves e é da sua propositura a Lei do Salário Família, (Lei 4266 – 1963) aprovada por Jango Goulart.

                                          A Igreja Católica no Brasil da época mantinha-se extremamente “conservadora”, ainda na linha do Papa Pio XII, apesar da “nova era” instituída pelo Concilio Vaticano II, (Dezembro de 1961) do Papa João XXIII, (Angelo Roncalli – 1958-1963) e que foi priorizado pelo seu sucessor o Papa Paulo VI, (Giovanni Montini – 1963-1978).


                                         Até então os “padres vermelhinhos” não ocupavam os púlpitos, mas uma voz isolada, a de Dom Helder de Barros Câmara, pregava uma “igreja simples” e engajada fortemente nos direitos humanos e movimentos sociais de favelados e do “operariado informal”, (lavadeiras, costureiras e outras profissões não sindicalizadas). Foi por isso estigmatizado como o “Bispo Vermelho”, (comunista) durante o Governo Militar.
                                        A Economia Brasileira e em especial a de São Paulo passavam por um processo de crescimento acelerado. O Governo Jânio Quadros e o sucessivo de Carvalho Pinto haviam investido pesado na infraestrutura: em hidrelétricas no Rio Tietê, rodovias, centrais de abastecimento, educação, saúde e transporte. Esse desenvolvimento exponencial deveu-se aos empregos diretos e indiretos da indústria automobilística, praticamente implantada no Governo JK e a ampliação do Parque Siderúrgico com a implantação da USIMINAS e da COSIPA, fabricando aços planos, (chapas de aço).
                                           Foi o dinamismo desse tempo, que forçou a construção de carreiras e a ascensão profissional de muitos jovens, que mal saídos da puberdade já se obrigavam em atividades semi-gerenciais ou de nível técnico e foi assim que com 4 anos de trabalho ascendi de mensageiro a Encarregado de Pessoal e comigo vários milhares de jovens passaram a fazer parte desse quadro diferenciado, ao qual não faltava “competência profissional”, mas que eram muito pouco traquejados no “relacionamento adulto”. Isso se constituía em grande problema de integração e imposição de respeito.
                                           O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Moji das Cruzes era na década de 60 o mais poderoso e organizado sindicato da América Latina. Fundado em 1932, já em 1954 contava com uma majestosa sede própria na Rua do Carmo. Essa categoria originalmente era constituída de “italianos” e “espanhóis”, já com “raízes anarquistas e comunistas” herdadas do ativismo em seus países de origem e foram os primeiros imigrantes a trabalhar na Indústria no Brasil já a partir dos anos 30, daí seu maior grau de politização e arregimentação. Vale a pena uma visita ao “site” da entidade.
                                          Pois bem, aos 18 anos e ainda imberbe e entre Outubro de 1963 e Abril de 1964, coube-me a tarefa de ser o “para-choque” entre o “patrão” e a “massa operária”. A empresa era constituída por duas categorias, distintas, e tidas como muito “rebeldes e combativas”: a dos fundidores, (em sua grande maioria gente robusta, bruta e de pouca instrução, em função do trabalho que realizavam e pelas condições sofríveis de trabalho) e a dos torneiros mecânicos, (mais velhos e organizados e por isso mais contestador e reivindicante). A Diretoria Industrial era exercida por um “paraguaio”, alto e forte evadido por razões políticas do Governo Stroessner, por sua militância comunista.
                                          Durante todo esse período era mais um “insuflador de greves” do que um dirigente e isso desbalanceava a comunicação “operário x patrão”, pois que se tornou o “porta voz das reivindicações” laborais e não um “fiel da balança” pesando oportunidade, conveniência, possibilidades e capacidade da companhia. À visão de um “fedelho” nos primeiros contatos, certamente julgou ter sua tarefa facilitada, pois via na minha idade uma fraqueza.
                                          Contudo, as muitas condições inseguras provocavam inúmeros acidentes de trabalho, (inclusive um fatal) e me cabia todas as providências de encaminhamento para atendimento ambulatorial, hospitalar e até policial e funerário no caso mais grave. Foi a nossa disponibilidade que angariou a simpatia do quadro de empregados, apesar dos “narizes tortos” nas primeiras perambulações pela área industrial.
                                         Outro fato que muito ajudou a essa integração foi a decisão de fazer um curso de Cronometrista, aconselhado pelo Chefe do Planejamento e Controle da Produção, que era o “diretor industrial” de fato e de grande acesso aos operários. Nos sábados não havia expediente e assim aproveitava alguns deles para treinar a “nova função” junto ao pessoal da Tornearia, que estava em horas extras. Escolhia sempre o mais influente do grupo.
                                        Era nos intervalos de café e nos “cigarrinhos”, que “socializava” com eles, procurando saber da sua habilidade profissional e depois das suas vidas e aspirações e mais principalmente das suas “necessidades”. Contava-lhes também das minhas, demonstrando que independentemente das responsabilidades profissionais, que também éramos “seres humanos” feitos do mesmo “barro” e alma.
                                         Foi esse comportamento que acabou por passar aos trabalhadores uma imagem incolor profissionalmente e foi assim que nos períodos mais críticos no movimento grevista, que eu era a única pessoa autorizada pelas “lideranças paredistas” a “entrar no escritório”. É evidente, que em parte devia-se ao fato de preparar as “folhas de pagamento semanal dos fundidores e a quinzenal de adiantamento de salários” dos demais funcionários.
                                        Como já enfatizei em crônica anterior a atuação dos “piqueteiros” tinha muito pouca gentileza, educação e tolerância para com os “fura greves” e, via de regra, terminava em muita pancadaria e em algumas oportunidades em tiros de intimidação. Eram notáveis as presenças do “paraguaio” e muitas outras “figuras”, que não pertenciam ao quadro de pessoal da empresa à testa do movimento paredista.
 
 
 

                                        Lembro-me de muitas greves nesses 6 meses, uma delas “relâmpago” durante o expediente, quando todas as máquinas eram desligadas inclusive o “forno de fundição”, acompanhadas da “ordem de evacuação geral”. Esta ocorrência obrigava ao Mestre Fundidor antes de sair, que furasse a “bica” do forno para esgotar o ferro líquido fundido diretamente ao solo, evitando que o material esfriasse o que destruiria o equipamento e que teria de ser dinamitado para seu desmonte.
                                        A Fábrica chegou a ficar até 7 dias parada em uma greve lá pelos meses de Fevereiro ou Março de 1964 e uma das últimas lembranças que tenho é que a partir do dia 01 de abril de 1964 a firma não mais parou.
                                        Fui demitido da empresa no final daquele mês e entre o dia primeiro até meu último dia de trabalho, nunca mais vi o “paraguaio” e nem os “grevistas profissionais”. O Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes tinha sofrido uma intervenção e os “militares” permitiram que assumisse o “pelego oficial” Joaquinzão, a princípio como Interventor no Sindicato em Guarulhos e em 1965 eleito pelo de São Paulo e Mogi das Cruzes. Lá ficou por 13 anos.
                                       Foi dessa maneira, que toda essa geração aprendeu “a andar na bicicleta” da nova realidade de vida e todos, de uma forma ou de outra, projetaram “mudar o mundo”. Muitos pensaram em fazê-lo pela luta ideológica associada à Lei do Talião, porém a grande maioria o fez “pela ideologia do estudo e do trabalho duro no dia a dia” contra as injustiças e os desacertos sociais para melhorar o meio onde viviam e trabalhavam, pois aprendemos, que até mesmo o “ideal” um dia se comercializa e se torna uma “t-shirt”.
                                      Como dizia o grande educador Júlio Gouveia no Teatro da Juventude da TV TUPI nos anos 50: (...) Entrou por uma porta e saiu pela outra... Quem quiser que conte outra....!”

  

Das percepções e pesquisas de
Antônio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania