domingo, 15 de junho de 2014


Antônio Figueiredo Continua Suas
Histórias Vividas nos Anos 60
na Sala de Protheus:

 

                     "... Mea Culpa, Mea Culpa...!”


 “...A minha consciência tem milhares de vozes,
cada voz traz-me milhares de histórias,
e de cada história sou o vilão condenado...!"

 Shakespeare

 
                                                  Por nove semanas estivemos aqui falando da Juventude dos Anos 60 – Anos de Chumbo Dourado. Todavia, esta décima crônica não será laudatória ou mesmo justificadora dos muitos desafios e embates a que foi submetida, mas sim para falar da sua omissão, pelo menos de uma grande maioria, quanto à politização de seus filhos, entre os quais me incluo.
                                                  Durante as décadas de 70 e 80 essa mesma geração buscou galgar a pirâmide social e o fez com sucesso, pois como já afirmamos anteriormente veio a se constituir na “primeira classe média trabalhadora” da História do Brasil. A mola propulsora da pujança do desenvolvimento econômico nesses anos de 1965/75 foi à decisão do Governo de partir para um processo de “substituição das importações” e a indústria brasileira passou pelo maior processo de diversificação já conhecido.
                                                   Em 1964 o Governo Castelo Branco implementou o PAEG, (Plano de Ação do Governo) sob o comando da “trinca da Economia”, (Otávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Hélio Beltrão) visando basicamente: acelerar investimentos através do Governo Central, debelar a crônica crise cambial e principalmente a inflação, que se aproximava perigosamente da taxa anual de três dígitos e que já vinha sendo o maior “calcanhar de Aquiles” da Economia Brasileira desde o Governo JK.
                                                    Para isso realizou algumas “reformas de base” como a eliminação da “falsa estabilidade emprego” da CLT, mediante a criação do FGTS, um sistema de “poupança forçada”, patrocinado pela classe patronal. Até então o empregado tinha a direito a um salário mensal por ano trabalhado em caso de “demissão sem justa causa”, mas ao atingir 10 anos de trabalho ganhava direito à estabilidade e só poderia ser demitido mediante a uma indenização em dobro dos valores. A grande maioria dos “estáveis dispensados” ficava a ver navios, pois ou as empresas mantinham “longas pendengas judiciais”, ou se “quebradas”, nada sobrava ao trabalhador no processo falimentar.


                                                    Atrelado ao FGTS criou o BNH destinado a construção de moradias populares, (outra reivindicação prioritária face aos constantes conflitos gerados pela Lei do Inquilinato, que chegou a ser uma “bandeira eleitoral e plataforma política”). Iniciou também um forte processo de “nacionalização de companhias estrangeiras” no campo das telecomunicações, (as Teles), de geração e transmissão de energia, (as Eletro) e mineração, (a Vale). Outra medida foi incrementar a indústria siderúrgica, que era o paradigma de “vitalidade econômica” mundialmente nos anos de 1930 a 80.
                                                     Iniciou-se no período um processo vertiginoso de montagem da “infraestrutura” mediante a construção de estradas, hidrelétricas, portos, sistemas de água e saneamento e de indústrias de tecnologia de ponta, como aeronáutica e armamentos, além da de “química fina”, implementadas nas novas refinarias. Obras estas projetadas, construídas e inauguradas somente após sua conclusão e funcionamento e decorridos 50 anos constatamos que praticamente nada mais se fez após isso pela infraestrutura no país.
                                                    A Petrobrás que era uma “conversora de petróleo importado” em gasolina e diesel, graças às baixíssimas reservas e extração em terra firme, avançou sobre a plataforma continental e começaram a serem exploradas as reservas da Bacia de Campos, no início dos anos 70. Foi apenas em 1986 e seguindo o rastro das descobertas peruanas na Amazônia, que se começou a prospectar e a explorar as reservas de gás e petróleo de Urucu no Amazonas e se pensar na autossuficiência de óleo.
 
                                                   O petróleo sempre foi uma questão emblemática pois que nos anos de 1960/61 o técnico americano, Walther K. Link (contratado da Petrobrás) havia afirmado baseado nas prospecções realizadas, que o Brasil não possuía petróleo em “terra firme”, exceto numa pequena faixa amazônica e que concentraria maiores possibilidades no mar. Esse relatório foi interpretado como se Link fosse um “espião americano” e era uma recomendação de “submissão permanente aos interesses imperialistas”. (Seven Sisters).
                                                     O projeto RADAMBRASIL mapeou de 1970 a 1985 todo o espaço físico brasileiro e pela primeira vez teve-se um real conhecimento do potencial biológico e geológico, principalmente da Amazônia brasileira, até hoje muito mal explorada, onde surgiu uma nova província mineral.
                                                     Os Governos Militares, que tinham forte inspiração “nacionalista” nascida no Tenentismo de 1922, pôs em marcha seu plano histórico e com isso arrebatou todas as “bandeiras da esquerda”, mas para isso restringiu liberdades constitucionais, de organização sindical e principalmente ao passar a legislar por decretos, tornou o Congresso Nacional e o Judiciário em “fantoches” do Executivo, para vender ao mundo um “fantasma de Democracia”. Hoje se legisla por Medidas Provisórias e se vão os anéis, mas fica o “mesmo dedo”.
                                                       Nada diferente do que se vê na “moderna China” do Século XXI, um modelo para os anseios da Esquerda Moderna, (que fala de Lenin e Marx) e de alguns muitos “saudosistas” da Direita. Essa sempre foi à receita de desenvolvimento em regimes autoritários e foi com isto que a “corrente nacionalista” aquietou-se e se afastou da “corrente esquerdista”. Somente voltariam a se reunir com as revelações dos “porões da ditadura”.
                                                      Por fim, foi a Reforma Universitária de 1968, (Lei n° 5.540, de 28/11/68), que abriu definitivamente as portas do Terceiro Grau àquela geração.


                                                       Por fim, era essencial que essa Classe média entrasse na “sociedade de consumo” e isso ocorreu dando-lhe acesso a automóveis, (DKW Pracinha, SIMCA Profissional e o Willys Teimoso). Mas efetivamente o modelo que mais marcou o período foi o Fusca com sua versão mais barata, o "Pé de Boi". Isso só foi possível com o alargamento dos prazos de financiamento máximo em até 48 meses, até então inéditos, pois a inflação não o permitia. O mesmo ocorreu com os eletrodomésticos de larga duração, como TV’ s, refrigeradores e fogões.
 
                                                       Outro fator que muito contribuiu foi o empuxo dado à construção civil, que ofertava novos empreendimentos, principalmente apartamentos, em bairros até então não sonhados por essa “pequena burguesia” e os “suburbanos” começaram a invadir os bairros de classe média.
                                                       Com toda essa euforia a “nova classe média” mergulhou nos estudos, nas novas oportunidades de trabalho cada vez melhor remuneradas e no crediário. Algo parecido ao que aconteceu nos anos de 2005 a 2012, que lembrou “muito de longe” o chamado Milagre Brasileiro dos anos 70, quando o PIB crescia 10% ao ano. Aquela era uma verdadeira “classe média emergente”, os chamados “reacionários” de hoje.
 
 
                                                       Essa nova classe começou a demandar uma “nova educação” para seus filhos e graças a já incipiente degradação da “educação pública”, passou a matriculá-los nas “melhores escolas particulares” e com certeza pesou nessa decisão a lembrança das próprias dificuldades passadas e a luta de seus antepassados. Talvez nisso residisse o seu grande erro. Por não desejar que os filhos tivessem a mesma “vida difícil”, deu-lhes “de brinde” a ilusão de que “a vida não é tão dura, quanto parece”.
                                                        O mesmo refletiu-se na conscientização política. Os anos mornos, sob o Regime Militar, e o crescimento social individual tornaram-os egoístas e individualistas, pois ainda que o merecessem, esqueceram-se, em sua grande maioria, de outros “suburbanos” e “periféricos”, que lutavam a mesma luta, só que sob outras condições e muito maior dificuldade. O “gosto de levar vantagem em tudo” do Gerson instalou-se como o “padrão filosófico” nacional.
 
 
                                                       Um vislumbre de atitude cidadã foi dado no Movimento Direto Já, mas uma vez mais o “povo” delegou aos políticos a tarefa exclusivamente sua de “pressionar por mudanças” e mais uma vez a “solução” foi aquela que mais interessava aos “representantes de si mesmos”. E foi assim, que morrendo de medo dos militares, que já haviam “largado o osso”, que aprovamos uma Constituição Cidadã covarde, porque só olhava o passado e se esqueceu do futuro.
                                                      Voltamos ao “pré-natal” político e hoje julgamos Democracia falar mal e vaiar políticos, porém votando nos mesmos homens e mesmos partidos. Somos incapazes de reconhecer os “muitos avanços” acontecidos naqueles tempos e por isso somos incapazes de continuar a “mudar a Nação”, porque somos incapazes de mudar o nosso conformismo, passividade e covardia.
                                                    Continuamos, paradoxalmente, adorando o “bezerro de ouro”, mas esperando o Messias...

 
Das percepções e pesquisas de
Antonio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania
 
 

 

quinta-feira, 12 de junho de 2014

#PensarNaoDoi
 
 
Sociedade Brasilesa!
-Uma Família Desestruturada –

 
 

 "... A sociedade não é mais do que o desenvolvimento
da família se o homem sai da família corrupto,
corrupto estará para a sociedade...! ".
Henri Lacordaire

 

                                            O pensador francês Jean-Jacques Rousseau, em um de seus escritos, deixado para a posteridade e muito bem dito afirmou: “(...) O homem nasce puro e a sociedade o corrompe...!”.
                                             Utilizo ambos os pensadores citados, sem ser pretensioso, para, ao menos tentar, fazer uma análise rápida do que está acontecendo com a Família Brasilesa.

Sim como estado evoluímos de outra instituição um pouco mais antiga: a família. Senão vejamos:
                                           O governo, como forma administrativa de todo este país, amado por Deus, pode ser considerado nosso “pai”. A Justiça, um dos poderes mais fundamentais e necessários, nossa “mãe”.
O congresso, por consequência seriam nossos “irmãos mais velhos”.
A população, da qual me incluo os demais filhos desta imensa e amada família verde e amarelo.

Mas o que está acontecendo com esta família na última década?
Esta desestruturada. Não me atrevo a utilizar outro adjetivo. Como afirmei no início, não pretendo ser prepotente, apenas e simplesmente uma análise do que está nos acontecendo.

Nosso pai, não é um pai que um filho espera. Ele está igual àquele pai – alcoólatra, drogado, perdido na prostituição, com outras “mulheres”, esquecendo-se de nossa “mãe”.
                                        E nossos irmãos mais velhos (o congresso) que deveriam, por sua vez, “se colocar” no lugar do pai, estão seguindo o mesmo caminho. Ou seja, o exemplo dado pelo pai está servindo aos irmãos mais velhos.



Sim exatamente o mesmo caminho.
                                       Nossa mãe (a justiça) encontra-se perdida. Tenta de todas as maneiras, ainda, salvar o restante dos “filhos”: Nós todos! Mas está encontrando dificuldades terríveis.
                                        O “pai” forte, com apoio dos “irmãos mais velhos” – estes também fortes – parecem  quererem tomar conta de toda a “família” com ordens, com medo, com desmandos, com tentativa de compras dos “irmãos menores”.
                                        Estes “irmãos menores”, - todos nós – na maioria das vezes nos sentimos encurralados, enfraquecidos, temerosos. Por outro lado, por sermos de boa índole, como todo filho sempre ficará do lado mais fraco, a “mãe” – Justiça – e tenta de todas as maneiras, além de salvar a “mãe”, proteger os irmãos menores.
                                        Sim entre nossos “irmãos menores”, temos pessoas inteligentíssimas, sábios, generosos, educadíssimos, mas temos também, como toda família as “ovelhas negras”, e não podemos simplesmente abandoná-los à sua própria sorte.

Desta forma acabam se revoltando. E muitas vezes se enfurecendo e enfurecidos, talvez, nem sempre façam atos que sua “mãe” aprovaria.  Mas um tanto quanto perdidos, eles tentam salvar o que ainda lhes resta. A dignidade que foi aprendida com os avós (outros governos, mesmo de outras “famílias” – (países)), e saem e busca de soluções, muitas vezes sozinhos e desencontrados.
Não sei se fazemos (repito, faço parte dos irmãos menores) a coisa certa. Mas de uma coisa temos certeza. Sim, absoluta. Não é isso que queremos para nossa “família”. Queremos preservar nossa “mãe” (justiça), a todo  e qualquer preço.

Sempre defenderemos os mais fragilizados. Está na nossa natureza. Está nos nossos genes. Em nossa memória genética. E não abrimos mão disso.
Não queremos mais um “pai” e “irmãos mais velhos”, envolvidos e escândalos, roubos, tribulações de toda espécie que nossa “mãe” (justiça) sempre nos ensinou que é errado.

Temos alternativa?
Sim, confesso, buscando minha coragem natural mais forte, daquilo que aprendi que os valores, a dignidade, o respeito é que fazem de uma família ser, por sua vez respeitada e admirada. E não nos sentimos assim: Por isso digo a todos meus “irmãos menores”:
                                               Em Outubro, talvez possamos arrumar outro “pai” para nossa “mãe”. Não aguentamos mais vê-la assim, sozinha, desprotegida, ameaçada, vilipendiada, humilhada de todas as formas. É nossa fé que nos leva a, talvez, fazer algo que nunca pensaríamos. Mas precisamos de outro “pai” para nossa  desprotegida “mãe”.

Precisamos  renovar e fortalecer nossa imensa  família  - “País” – de qualquer forma. Não podemos perder o que julgamos de mais importante:
Precisamos do amor, da proteção, dos conselhos, de um “pai” amoroso, presente. Precisamos de “irmãos mais velhos “ – Congresso – que nos proteja, que estejam de mãos dadas conosco. Estamos parecendo órfãos.
                                           Um grande “tio”, parente distante, de outros tempos o “tio” Rui Barbosa deixou escrito nos “livros da família”:
“... Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou
desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseverança...!”.

                                              E os desiguais somos nós, os “irmãos menores”. Estamos nos limites de nossa energia. Nossa moral está abalada. Não aguentamos mais as desigualdades que estão fazendo com nossos “irmãos menores”, principalmente no nordeste.
                                               Não aguentamos mais a “deseducação” de nossos irmãos em todos os sentidos. Nossos “irmãos bem pequenos”, não estão mais sendo ensinados em casa. Na escola, os professores parecem somente se interessarem pelo “dinheiro” que vem ou não de nosso “pai”.
                                               Com raras exceções – estas sim vindas do Nordeste – os professores, nossos “irmãos mais sábios”, estão tirando do próprio bolso, seu suado dinheirinho para comprar merenda e material escolar para tentar, ainda, ensinar algo que valha a pena.
Mas como disse nosso “tio” Rui Barbosa, nós ainda temos muita perseverança e esperança acima de tudo.
                                                  Talvez muitas outras “famílias” não gostem e que Ele, (seja o nome que queiram dar outras “famílias”) nos proteja, mas nos queremos o “divórcio” de nossa “mãe”. Queremos outro “pai”.
Que seja mais amoroso, mais presente, mais preocupado com seus filhos. E não o que está aí.



                                                            E nossos “irmãos mais velhos”, - Congresso – Já são grandinhos. Eles que sigam suas vidas e deixem que façamos a nossa.  Mas com justiça, com moralidade, com valores, com dignidade que possamos manter nossa “família” – País-, e nossos “irmãos menores”, - toda a população -, Com mais fé em nós mesmos.
Do contrário sucumbiremos. Não seremos mais uma “família” e sim um bando. E não queremos isso

Queremos nossa “família” de volta.
Queremos nosso AMADO BRASIL, Verde e Amarelo de volta.

Um grande pensador chamado Thomas Paine disse: “... A sociedade é produto de nossos desejos, e o governo de nossas maldades...!”.
Então se o Brasil é produto de nossos desejos, não queremos mais um governo de maldades.

Quero minha “família” – BRASIL – de volta!
Você que é meu irmão menor... Por favor... Ajude-me?
Por favor... Ou será que estamos ficando órfãos?

 

 

Entendimentos & Compreensões
Afinal... Pensar não dói...!”.
Das vivências e percepções de uma atualidade triste
Publicado em:
www.konvenios.com.br/articulistas
www.cadernodeeducacao.com.br
www.pintoresfamosos.com.br
 
 
 

 

segunda-feira, 9 de junho de 2014


O Mestre e Amigo Antônio Figueiredo
Continua suas Histórias Vividas
Na Sala de Protheus:

 

 

MENINOS NA ESCOLA!




 “...Meninos... Deixem de proferir palavras tão vagas!
Tão jovens... E tão autoproclamados sábios...!”.

 Sócrates

 
                                           Em 1964/5 iniciou-se um processo de renovação profunda no magistério em São Paulo, pois com o crescimento do número de Escolas de Segundo Grau uma “nova geração” de professores começou a lecionar. Eram em sua grande maioria jovens na faixa de 24 a 27 anos recém saídos em sua maior parte das Universidades Públicas.

                                            Até então o magistério ainda pertencia à “velha guarda” no método e na idade e isso fazia das aulas em sua quase totalidade, salvo o idealismo de alguns “vocacionados educadores”, um fardo modorrento e pouco interessante. Extenuante para os docentes e desestimulantes para os discentes, pois o método consistia na transmissão sem questionamentos “ipsis literis” do “programa oficial” já obsoleto para a curiosidade e rebeldia da “nova geração”.
                                             As matérias de “Exatas”, (Física, Química e Matemática) seguiam a tradição da “decoreba”, (como se diz hoje), consistindo na exposição, aplicação de exercícios e aferição, sem quaisquer atrativos ou mesmo casos práticos de aplicabilidade, que incitassem o aprendizado. Poucas escolas tinham um Laboratório de Química e nenhuma para experimentos de Física.

                                              Foi a partir dos anos 50 que o “ativismo nacional-progressista”, (não se entenda isso como “esquerdismo”, que era associado ao “marxismo”), começou a influir e a desnudar a “realidade brasileira” a partir dos bancos universitários. Destacaram-se, para citar os mais influentes do pensamento da época: Josué de Castro, (médico nutrólogo), Florestan Fernandes, (cientista social), Celso Furtado, (economista), Monteiro Lobato, (escritor) e Gilberto Freire, (sociólogo e antropólogo) instalando-se assim um “realismo crítico”, que as oligarquias políticas e econômicas dominantes insistiam em taxar de “ideias comunizantes”.
                                               Essa foi a inovação trazida por essa nova geração de professores e que encontrou profundo eco nos bancos escolares, ocupados que eram por jovens recém-lançados no mercado de trabalho e oriundos das classes mais baixas da população, mas ambiciosa em ascender posições educacionais e sociais e que veio naquele futuro imediato a se constituir na florescente “primeira classe média” originária do “trabalho”.

                                                No ano de 1965, após 3 anos longe dos bancos escolares, resolvi retornar cursando o recém instituído “Científico” no Colégio Paulo Egídio na Vila Maria. Foi minha maior motivação a pressão exercida por meu “chefe” no Moinho Santista, (Eng. Ronaldo, a quem aqui rendo homenagens), pois ainda que exercesse um cargo técnico, (Cronometrista e Controlador de Produção) ele me instigava a que eu deveria aspirar mais. A falta de mão de obra técnica de terceiro grau na época era muito grande e como já comentei em crônica anterior, o Diretor Industrial havia se formado “engenheiro por correspondência” na International School.

                                           Minha grande surpresa começou na apresentação dos novos professores de Português, História, Geografia e Inglês, todos eles muito jovens e muito bem apessoados e evidentemente todos oriundos de uma classe média mais alta. A professora de Português em especial era um “piteuzinho” e logo deixou apaixonada a metade masculina da classe. Já a segunda grande surpresa veio do método de ensino.
 
 

                                          No estudo da Geografia introduziram-se os conceitos de Geografia Econômica, que muito além de estudar acidentes geográficos, rios, países e cidades, passou a disseminar informações sobre as características sociais, políticas e econômicas das regiões estudadas. Não foi pequeno o impacto da revelação das condições socioeconômicas em muitos lugares, (a situação da República de Biafra era humilhante), mas mais principalmente de algumas regiões brasileiras, inclusive no Estado de São Paulo.

                                          Já no estudo da História começou-se a fazer uma análise mais crítica dos eventos da “história oficial”, como a Inconfidência Mineira, a Independência e a Proclamação da República. Foi um tempo de pura iconoclastia histórica gerada pela desconfiança de que sempre preponderaram os interesses oligárquicos econômicos e políticos sobre as verdadeiras aspirações e reclamos populares nacionais, ainda que imanifestos ou despercebidos.
                                           É histórico o ditado “vão-se os anéis e ficam os dedos” e essa oligarquia sempre soube “dar anéis” para prudentemente manter com “mãos firmes” as riquezas hereditariamente alcançadas concentradas e indivisíveis.

                                            Entretanto, a maior das surpresas veio nas aulas de Português. A professora que já seduzia pela presença, passou a fazê-lo também pela atitude. As Análises Sintática, Lógica e Morfológica passaram a ser feitas sobre “letras de música” e o primeiro eleito foi Chico Buarque de Holanda e seu “Pedro Pedreiro” e isso se revelou um atrativo em uma matéria tão “sacal”. Além da análise propriamente dita discutia-se a beleza criativa estética e temática e isso enriquecia o debate e a criatividade do grupo.
                                           Além disso, a “linda professora” começou a se interessar pelas reivindicações e queixas dos alunos e delas se tornou “intercessora” junto à direção escolar e isso tornou o inusitado relacionamento ainda mais estreito e o interesse de participação dos alunos cresceu. Nesse tempo ainda não haviam grêmios estudantis secundaristas organizados.

                                             Como não deixaria de acontecer, o maior interesse por essas matérias tão “humanas” gerou uma “discussão política” até então inédita no meio daqueles jovens entre 16 e 19 anos e os debates sobre temas nacionais da época começaram a ser uma “matéria extracurricular” no Paulo Egídio, estendendo-se por recreios e pós-aulas. Jovens, que habitualmente eram alienados nas “discussões adultas”, passou a ser protagonistas e teóricos de decisões do grupo e dali irradiava para seu convívio social e profissional as novas ideias e ideais.
                                          Justiça se faça aqueles professores, que jamais tentaram doutrinar ou direcionar temas e convicções pessoais, pois ainda que jovens e tivessem “seu partido”, eram conscientes da sua responsabilidade de educadores, além do fato de que aquela juventude era sedenta de “aprendizado sem pressupostos ideológicos”. Eram verdadeiros “professores de cidadania”.
                                          Para “pôr mais lenha nessa fogueira” 1965 estava definido, (desde Abril de 1964), como um “ano eleitoral” com uma esperada eleição presidencial. Os potenciais candidatos JK, Jânio Quadros, Leonel Brizola e Carlos Lacerda já rodavam o país pregando suas plataformas e programas e é evidente que essa discussão entrou na “sala de aula”.
                                        A “jovem professora hippie” de Inglês fez tema das aulas a tradução de canções americanas e inglesas, afinal os The Beatles já causavam sensação também naquele Brasil de 1965, além de Elvis Presley, Neil Sedaka, Paul Anka e muitos outros. Era uma “juventude americanizada”, (ou “americanalhada” como classificava a Esquerda). Entretanto, também começou a falar do Movimento Hippie, suas raízes e sua relação com a Guerra do Vietnã e nos ensinou a canção “Eve of Destruction” de Barry McGuire e foi assim que começamos olhar pela “janela do mundo” e a conhecer Martin Luther King e sua luta pelos “direitos civis”.
 
 

                                         O ano de 1965 marcou também o início do engajamento político do movimento estudantil, mas não no nosso meio. Isso começou através da UNE e foi tipicamente um “movimento da classe média”, aquela que tinha acesso aos cursos universitários de alcance impossível aos secundaristas da periferia. Uma das molas impulsoras em São Paulo foi a passagem do show OPINIÃO, no qual era forte a influência de Oduvaldo Vianna Filho, (o Vianinha), Ferreira Gullar, Paulo Pontes e outros, dirigido por Augusto Boal e apresentando Zé Kéti e Nara Leão, (posteriormente Maria Betânia com o selvagem CARCARÁ, que levantava o público). Seguiram-se depois Liberdade, Liberdade e Arena conta Zumbi.
                                           Foi também o início da era dos Festivais Universitários de Música Popular e coube à TV Excelsior de propriedade de Mario Wallace Simonsen, que reunia no seu “cast” artistas notoriamente progressistas, a primazia da sua organização. O primeiro grande vencedor foi ARRASTÃO de Vinicius de Moraes e Edu Lobo e que lançou nacionalmente Elis Regina.
                                            Logo a seguir a TV Excelsior foi praticamente desmantelada por “inviabilidade financeira”, pois os anunciantes foram “convencidos” a não mais prestigiá-la e aconteceu quase simultaneamente o incidente conhecido à época como o “escândalo TIME-LIFE” e seus 6 milhões de dólares, que deram à Rede Globo o domínio da “mídia televisiva”, bem a calhar aos interesses dos Governos Militares.
                                           Pois bem. Foi um tempo frenético de muitas canções de protesto e uma juventude que agitava “punhos e slogans”, contudo, tudo acontecia muito distante. Era uma “juventude politizada”, que já “respirava teses marxistas” desde os Anos 30. (Carlos Lacerda e Roberto de Abreu Sodré foram “comunistas” na juventude). Já a juventude da periferia não ia e nem “cabiam em seus bolsos, ideais e realidade” esses Festivais...

 
 
Das percepções e pesquisas de
Antonio Figueiredo – Entre Algum Lugar entre a Bahia e São Paulo
Economista, Escritor, Empresário, Militante Apartidário Parlamentarismo e Voto Distrital Puro. Ex - Ativista Movimentos Sociais Católicos/ Metalúrgico/ Estudantil (1961/73). Operário da Cidadania